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Aprendemos alguma coisa com a tragédia de 2008?

Início da enchente no bairro Fortaleza. FOTO: Giovanni Ramos/Cidade Plural

Enxurradas no Ribeirão Fortaleza em Blumenau sempre foi algo comum em períodos de muita chuva ou em tempestades de verão. Era a manhã de um sábado frio e chuvoso quando o ribeirão novamente não deu conta de escoar toda a água que caia na região Uma ponte antiga e baixa, as obras inacabáveis de um dique contra cheias, tudo isso colaborava diretamente para piorar a situação. O centro do bairro Fortaleza estava novamente alagado, fazendo com que o comércio local precisava, às pressas, retirar os seus móveis.

Parecia m

ais uma enxurrada normal se não fosse o fato dos três meses que antecediam aquele sábado fossem tomados pelo cinza e pelas chuvas. Era 22 de novembro de 2008 e a enxurrada no bairro Fortaleza era um dos primeiros sinais de uma das maiores tragédias climáticas da história do Vale do Itajaí.

Uma cidade acostumada a lidar com as chuvas, com alagamentos e enchentes, ficou perplexa em um final de semana que jamais será esquecido: não era o nível do rio que assustava e sim as notícias de deslizamentos – primeiramente do morro ao lado do Shopping Neumarkt, ainda no sábado de manhã, um fato que se espalhou pela cidade sobretudo na madrugada de sábado para domingo.

Estávamos diante de um novo cenário sem saber como lidar com isso: nem mesmo a imprensa estava preparada para lidar com o assunto. O Jornal de Santa Catarina, então principal veículo da cidade, não tinha um portal de notícias diário na época. O Diário Catarinense de Florianópolis possuía, mas sem uma ligação direta com a equipe do Santa em Blumenau. A televisão não se preparou para o caso: resumiu-se em uma entrevista com o prefeito da época, João Paulo Kleinübing no “RBS Notícias” no sábado à noite. Kleinübing apareceu com uma capa de chuva sem uma gota dentro do estúdio da RBS, afirmando que estava tudo sob controle.

A cobertura da imprensa da tragédia de 2008 em tempo real foi feito pelas rádios e pela internet. Destaca-se o trabalho comunitário das rádios, que se uniram em uma “rede da solidariedade”. O twitter, que dava seus primeiros passos no Brasil, se destacava na cobertura online. O site Alles Blau, idealizado pelo jornalista Fábio Ricardo, agregou as informações repassadas pelo público no twitter e tornou-se uma referência.

Da cobertura da imprensa vale destacar o justo reconhecimento nacional do caso, dado pelos principais veículos de comunicação do país (apesar de ninguém entrar ao vivo durante a tragédia) e o lamentável caso da apresentadora de entretenimento Ana Maria Braga, que num caso clássico de sensacionalismo e exploração de tragédia, apresentou um dos seus programas diários de receitas a partir de Blumenau.

Quando a tragédia passou, o sentimento era de solidariedade. As críticas, as buscas pelos motivos da tragédia, a exploração que alguns comerciantes tiveram no sábado, foi deixada de lado para focar nos esforços pela reconstrução da cidade. Os blumenauenses, assim como os moradores de Gaspar, Ilhota, Itajaí, Brusque, todos mostraram força e determinação no recomeço.

Passaram-se 10 anos e não há como hoje fazer perguntas mais críticas sobre o que ocorreu há uma década.

  • O que nós aprendemos com a tragédia?
  • Blumenau está preparada para outa catástrofe climática com as mesmas proporções?
  • Avançamos na legislação ambiental?
  • Combatemos, com eficiência, ocupações irregulares e em locais de risco?
  • Por que a Escola Tiradentes, da comunidade da Rua Pedro Krauss Senior, não foi reconstruída em um local mais seguro? Por que deixaram uma comunidade carente sem uma escola de referência?
Giovanni Ramos
Estudante de Doutoramento em Ciências da Comunicação. Jornalista com mais de 10 anos de experiência no Brasil. gio@vivacovilha.pt