17/Fevereiro/2018

Transporte coletivo e a construção de um novo modelo

Alguns pontos fundamentais para a sustentabilidade e construção de um novo modelo adequado a nossa realidade


Arquiteto e urbanista. Professor da Furb
VLT em Roma, sistema de transporte integrado e multimodal, priorizando as pessoas, baixa velocidade, conforto e confiabilidade, com desenho urbano adequado e planejamento de médio e longo prazo. Foto: Christian Krambeck, 2016.

A mobilidade urbana não está ligada apenas ao sagrado direito de liberdade de ir e vir de cada cidadão, mas também é um elemento chave para a sustentabilidade ambiental e o desenvolvimento da economia local e regional.

Tem a ver com a capacidade de inovação, empreendedorismo, novas possibilidades e atração e retenção de talentos.

Talvez o elemento mais importante seja sua relação com a satisfação, autoestima, saúde e felicidade dos moradores da cidade.

A realização deste potencial está diretamente relacionada com o modelo e sistema de mobilidade existente em cada cidade, o atual e predominante baseado no carro individual: poluidor, ineficiente, caro, individualista, violento, estressante e ultrapassado ou num modelo sustentável coletivo, inovador, integrado e multimodal tendo o transporte coletivo como principal referência?

Não há mais dúvida, o consenso já está formado entre especialista, técnicos e pesquisadores, qualquer cidade grande ou média que continuar priorizando o transporte individual motorizado particular está fadada a falência e caos já no curto prazo, além de comprometer a saúde física e psicológica de seus cidadãos, comprometendo ainda o futuro das próximas gerações do ponto de vista ambiental.

Mas o maior problema é que o atual modelo de transporte coletivo também está superado, não responde mais às necessidades, expectativas e condicionantes impostas neste século XXI a partir da realidade fiscal, econômica e política das cidades.

Leia também: Contra poluição, Alemanha cogita transporte público gratuito (Fonte: G1)

Mesmo países desenvolvidos estão tendo problemas com seus sistemas de transporte coletivo, a Alemanha devido ao alto grau de poluição gerado pela emissão de CO2 pelos carros e  Nova York devido o sucateamento e baixos investimentos nos últimos anos, além de vários outros países e cidades pelo mundo.

Os sinais são de toda ordem, desde falta de visão política e preocupação com o futuro da cidade e seu planejamento urbano, passando pela questão dos combustíveis fósseis e alto custo da passagem; até mudanças de comportamento das pessoas e do mundo do trabalho.

Qualquer cidade que queira estar bem no futuro, precisa constituir um corpo técnico qualificado, permanentemente capacitado e treinado e criar mecanismos e ferramentas para estudar, pesquisar e antecipar os problemas concretos do sistema e do cotidiano, olhando sempre para o futuro a médio e longo prazo.

 

Blumenau vive uma situação particularmente perigosa e explosiva:

Contava anteriormente com um modelo muito interessante, 3 empresas locais com experiência e tradição atuando conjuntamente em consórcio, linhas e horários consolidados, terminais de ônibus, estações de pré-embarque no Centro e motoristas e cobradores capacidades, além de um sindicato atuante, até que por motivos estranhos, todo o sistema entrou em crise.

A solução adotada pela Prefeitura, antes de um amplo diagnóstico e intervenção direta no consórcio para corrigir os eventuais erros, foi romper totalmente o contrato, o serviço e todo o sistema, abrindo as portas para uma nova empresa atuando durante 24 meses emergencialmente e depois a mesma empresa tendo vencido a licitação para concessão do serviço público durante 20 anos.

 

Audiência Pública discute o Transporte Público em Blumenau:

Alguns fatos novos trazem um pouco de esperança: Na última quinta-feira, dia 15, houve uma audiência pública convocada na Câmara de Vereadores para discutir o assunto, e para surpresa dos próprios vereadores e da Prefeitura houve uma espécie de rebelião dos usuários e comunidade no sentido de exigir mais atenção, planejamento, melhorias e respeito.

Outro ponto, foi a conclusão recente do novo Plano de Mobilidade, que aponta alguns caminhos, abordei o assunto em artigo anterior  no Cidade Plural: Plano de Mobilidade Urbana de Blumenau, uma nova era?

Também está em elaboração, com previsão de conclusão este ano, o Plano de Segurança Viária, visando a saúde e segurança das pessoas e priorizando o transporte coletivo e cicloviário.

Mas o maior problema é número de usuários de ônibus que diminui constantemente nos últimos 8 anos, isso acontece por vários motivos: desde a facilidade para adquirir carro próprio, a continua prioridade de soluções e investimentos para o carro, o alto custo da passagem de ônibus, a crise do sistema em Blumenau e sua baixa qualidade etc.

Infelizmente o sistema entrará em colapso já daqui a 5 ou 6 anos caso a sociedade civil, universidade, prefeitura e políticos não se unam para estudar, pensar, construir e implantar um modelo inovador, sustentável, democrático, inclusivo e eficiente para as pessoas no século XXI, com horizonte de referência em 2030.

 

Alguns pontos fundamentais para a sustentabilidade e construção de um novo modelo adequado a nossa realidade:

  • Amplo e profundo diagnóstico sobre o sistema de ônibus, considerando todas as dimensões de análise e os recentes Plano de Mobilidade e o Plano de Segurança Viária, além do Plano Diretor e demais estudos já realizados.
  • Baixar o preço da passagem e manter abaixo de 3 reais, considerando a possibilidade de um imposto tipo IPTU onde todos os cidadãos paguem uma taxa anual para subsidiar o sistema de ônibus, que é de interesse de todos, melhora a qualidade de vida e a economia local.
  • Transformar os terminais de ônibus em pólos de cidadania e mobilidade, com estacionamento para carros, bicicletários e aluguel de bikes, reurbanização com praças e ciclovias no entorno, comércio fortalecido, serviços públicos, internet gratuita etc.
  • Investir na reurbanização, qualificação e diversificação dos 5 maiores centros de bairros da cidade, incentivando o adensamento e implantação de edifícios residenciais e espaços públicos de qualidade próximos, além de empregos, diminuindo a necessidade diária de deslocamentos entre bairros e dos bairros até a região central.
  • Que a nova agência reguladora tenha autonomia e liberdade para cumprir seu papel, e que seja dotada de um corpo técnico capaz e treinado no tema.
  • Que haja ampla e permanente participação comunitária e dos usuários do sistema.
  • Que os corredores de ônibus seja consolidados, melhorados e ampliados.
  • Que as linhas troncais tenham ônibus com piso rebaixado, ar-condicionado e combustíveis não poluentes.
  • Que todos sistema seja digitalizados e georreferenciados, sendo possível acompanhar o trajeto, horário, paradas e inclusive a velocidade média e número de passageiros on-line e via aplicativo de celular (aqui há oportunidade para vários negócios, ideias e startups).
  • Consolidação e interligação do sistema cicloviário, com planejamento e investimentos necessários, além de sua integração com os ônibus e terminais urbanos.
Bologna, Itália: ônibus urbano e turístico com piso rebaixado e ar-condicionado com identidade visual valorizando a cidade e o desenho urbano. Foto: Christian Krambeck, 2016.

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