Plano de Mobilidade Urbana de Blumenau, uma nova era?

13 de dezembro de 2017

Arquiteto e urbanista. Professor da Furb
Foto: Marcelo Martins

Ontem,  dia 11, a Prefeitura de Blumenau promoveu uma Audiência Pública para apresentar a versão final do Plano de Mobilidade Urbana de Blumenau, com horizonte temporal até 2035, considerando medidas de curto e médio prazo.

Chamou atenção a ausência do prefeito Napoleão Bernardes e da Câmara de Vereadores, que não enviou um único representante para debater um dos mais importantes temas para o futuro de Blumenau.

O vice-prefeito, Mário Hildebrandt, fez a abertura e depois se ausentou.

Outra ausência sentida foi a imprensa, que talvez não tenha percebido a gravidade da situação e o potencial do tema para gerar notícias e manchetes nos próximos 10 anos. 

Achei ainda que o número de participantes foi baixo, menos de 70 pessoas, incluindo os vários técnicos e funcionários da prefeitura. 

Pela primeira vez na história teremos um Plano de Mobilidade para chamar de nosso, o que vai dificultar muito as ações e mudanças eleitoreiras e oportunistas, realizadas pré e pós períodos eleitorais e mudanças de governo e partido.

Cabe parabenizar ainda o secretário de Desenvolvimento Urbando, Ivo Bachmann, pela postura e condução democrática e aberta à críticas e sugestões durante o processo e a audiência, como ele mesmo destaca abaixo, precisamos organizar e qualificar os espaços públicos e construir cidade para as pessoas.

“Esta etapa final é uma grande conquista para o futuro da nossa cidade, uma vez que organizar e qualificar o uso dos espaços públicos é uma prioridade dentro das decisões do poder público. É partindo de estudos como este que as próximas gerações poderão estabelecer uma interação mais justa e adequada”, disse o secretário.  

Foram mais de 2 horas de reunião, com alguns destaques:

  • O cenário atual é complexo e de difícil solução, temos 60% da mobilidade feita por carro individual, 20% de ônibus, 18% a pé e apenas 3% de bike.
  • A tendência é piorar muito, o atual modelo continua centrado de forma equivocada e perigosa no carro. Chama atenção que o plano apresentado não propõe a mudança de modelo, mas apenas um equilíbrio e melhoria da eficiência do atual.
  • O trabalho técnico foi bem feito e apresenta várias ferramentas para avançarmos e mudarmos o atual modelo, construindo todo nosso planejamento urbano e regional a partir do transporte coletivo, uso da bicicleta de forma ampla e cotidiana e morando perto do trabalho e estudo. É um começo!
  • Mas, a impressão que dá, é que um dos objetivos é validar todas as obras em andamento contratadas com o BID e PAC, num orçamento total de mais de R$ 200 milhões, sendo o previsto de investimento pelo Plano de Mobilidade de mais de R$ 800 milhões até 2035. Aqui estamos falando de 25% portanto com obras concluídas até 2020.

Na minha intervenção:

  • Tive a oportunidade de destacar a necessidade de mudar e construir um novo modelo mental coletivo, focado numa cidade para as pessoas, implementando a nova Secretaria de Mobilidade Urbana, e principalmente, o Conselho de Mobilidade com participação da sociedade, realizando uma Conferência Municipal a cada 2 anos para apresentação dos resultados, indicadores e avaliação popular.
  • Falei sobre a falta que senti de estudos e soluções voltadas para os centros de bairros e integração com as favelas de Blumenau.
  • Perguntei sobre os estudos comparativos entre a proposta original e a atual da ponte do centro, o qual a equipe técnica do consórcio contratado respondeu que não fez os estudos específicos e comparativos entre as 2 opções, não podendo responder qual é a melhor opção.

Requer atenção o segundo ponto da minha intervenção, a sustentabilidade do sistema de transporte coletivo.

Para que o sistema não entre em colapso em 5 anos,  não basta a previsão de corredores exclusivos e medidas previstas no Plano de Mobilidade.

É preciso rediscutir o modelo de concessão e construir novas alternativas, com prioridade absoluta para este modal de transporte, com mais inovação, tecnologia, confiabilidade, controle e principalmente diminuição do valor da passagem e aumento do conforto.

Só assim poderemos interromper a queda do número de usuários, que hoje está em 20% de usuários para este modo de transporte (os demais são carro 60%, a pé 18% e bicicleta 3%)

 

Firenze, Itália: Ônibus com piso rebaixado, ar-condicionado, acessível e com espaço para bike, integrado em sistema digital de percurso via telefone celular. Fonte: Christian Krambeck, 2016.

A arquiteta e urbanista, professora da Furb e presidente do IAB Blumenau, Daniela Sarmento, manifestou posição contrária à localização da ponte do Centro na curva do rio, ligando a ruas Paraguay e Itajaí e destacou a importância de não considerarmos apenas a dimensão viária, mas também a paisagem urbana, a questão cultural e o patrimônio histórico do local, que foi onde chegaram os primeiro imigrantes.

Conheça mais sobre a história da Prainha e a curva do rio Itajaí-Açú clicando aqui

Em outras intervenções é possível sintetizar os destaques da seguinte forma:

  • Ex-prefeito Felix Theis: destacou a importância do aeroporto de Blumenau e a contratação de estudos para comprovar sua viabilidade técnica ou não.
  • Arquiteto Alfredo Lindner: ressaltou a falta de citação do termo “anéis viários” no estudo realizado; que a equipe contratada realmente não realizou os estudos específicos comparativos para afirmar qual a melhor solução entre as 2 opções para a ponte do Centro e que há uma impressão de que grande parte do estudo se deu para validar as obras viárias atuais em andamento.

Talvez o ponto forte do Plano, sejam suas 8 Diretrizes Estratégicas de Mobilidade, justamente por organizar as ideias e apontar caminhos comuns para a construção de uma solução integrada e viável de curto, médio e longo prazo.

Fonte: Prefeitura de Blumenau

Confira abaixo as 8 diretrizes:

1- Segurança viária

2- Gestão democrática e transparência

3- Sustentabilidade

4- Transporte não motorizado

5- Sistema de transporte público
coletivo e especiais

6- Transporte de carga

7- Infraestrutura viária

8- Desenvolvimento urbano e regional

 

 

Por último cabe ressaltar a falta de ousadia em relação ao cenário proposto para uma cidade para as pessoas, uma mudança efetiva do atual modelo com prioridade para o pedestre, ciclista e transporte coletivo.

Isso requer um aumento nas metas e indicadores para estes modais, acompanhadas de aumento do investimento total específico para os próximos 20 anos.

Caberia sugerir a elaboração de um Manual de Desenho Urbano, com previsão para todas as soluções técnicas para padronização de calçada, sinalização, mobiliário urbano, pavimentação, sistema cicloviário e outros elementos urbanos com alta qualidade de design, função e atendimento ao usuário.

Outro ponto é o investimento de tempo, dinheiro e recursos humanos para soluções, projetos, planos e ações específicas para infraestrutura voltada para as pessoas, pedestres e ciclistas. Obras desvinculadas das caras obras viárias dedicadas ao carro individual que por exigência dos órgãos financiadores, também precisam prever ciclovias e passeios.

Criar 2 linhas de ação paralelas e concomitantes, com previsão orçamentária, por exemplo, num plano de interligação e qualificação cicloviária próprio da Prefeitura, que funcione paralelo aos demais projetos financiados, aumentando a agilidade e abrangência desta solução.

Firenze, Itália. Exemplo de desenho urbano contemporâneo, equilibrado e sustentável. Compartilhamento entre vagas vivas para vitalidade urbana e mesas de restaurante, espaço para bicicletas, motos, floreiras, pedestres e carros. Foto: Christian Krambeck

Temos um instrumento de luta e pressão, podemos agora nos organizarmos para exigir que todas as diretrizes, ações e projetos sejam amplamente discutidos, que sejam implementados pela Prefeitura, empresários, entidades e sociedade como um todo, e principalmente, que se transforme em lei municipal e que passe a ser obrigatório para todos os políticos e futuros ocupantes dos cargos públicos, eletivos ou não.

Só assim poderemos ter esperança na continuidade e sustentabilidade dos projetos elaborados, e num novo tipo de cidade inclusiva para as pessoas.

 

 

 

 

 

 

OPINIÃO DA EDITORA:

Ana Paula Dahlke

Christian Krambeck então foi no meu lugar. Ontem estava compromissada com outras coisas e não pude comparecer à audiência pública. Não eu menos importante, mas me surpreendeu quando comecei a ler o texto do nosso colunista, que falava da ausência do prefeito e vereadores no evento. Oras, o vice-prefeito estava lá, mas até onde sei, fez a abertura e deu pé!

Mas bom, além dessa questão, temos um problema gravíssimo: 60% da população se descola de carro. Por coincidência, hoje peguei um ônibus da Beira-Rio até o Terminal do Aterro (antes disso, passando a pé da Furb até o Shopping Neumarkt: Rua São Paulo, nas imediações da Furb, um caos. Rua 7 no trecho do Terminal da Proeb até o shopping, um caos. Beira-Rio, mesma coisa), era um Blumob da nova frota. Wi-fi não funciona. Passagem cara e vai aumentar para R$ 4,05 a partir de sábado, dia 16. Segundo o termômetro, calor de 29º,  e sensação de uns 32º dentro do ônibus lotado no horário do meio dia.

Apesar do trânsito, esse índice de carros nas ruas só vai aumentar. Temos que confessar: perdemos a oportunidade de fazer algo realmente eficiente no transporte público da cidade, como destacou Christian anteriormente.

Mas, acredito que falta um pouco de vivência nesse caso.

Na Suécia, o prefeito da Capital anda de ônibus.  

Em Blumenau, o vereador Bruno Cunha se manifestou em uma publicação minha no Facebook e informou que utiliza o transporte público regularmente. Ele ainda informou que há um comissão na Câmara específica para este assunto, mas não soube dizer se enviaram algum representante na ocasião.

Já os outros, ainda não tenho a informação, mas caso queiram se manifestar, podem nos contatar.