A licitação do ônibus, o custo-benefício e a população

30 de janeiro de 2017

Jornalista, editor do Cidade Plural
FOTO: Jaime Batista (Blog do Jaime)

R$ 3,90. Esse é o assunto do dia em Blumenau. Como muitos já previam, apenas a empresa Piracicabana apresentou uma proposta no edital do transporte coletivo de Blumenau (mais informações no Informe Blumenau). A menos que uma catástrofe aconteça, a empresa do grupo Comporte (da família Constantino, mesmos donos da Gol, Viação Penha, etc) cuidará dos transporte da cidade nos próximos 20 anos.

As reclamações possuem dois pontos principais: o fato de somente a empresa operadora do serviço temporário ter participado do certame, o que levava suspeitas. Há quem observou que a Prefeitura disse recentemente que os R$ 5 milhões que a vencedora da licitação pagaria de outorga seriam usados para quitar dívidas com a concessionária provisória, ou seja, a Piracicabana vai pagar para ela mesma.

Se a licitação é correta ou possui vícios e direcionamentos, não é o Cidade Plural que irá julgar. Quem tem alguma acusação que a leve ao Ministério Público ou torne público via imprensa. Vamos discutir aqui sobre os R$ 3,90, teto estipulado pela licitação que obviamente é a proposta da Piracicabana, cinco centavos a mais do valor reajustado há poucos dias.

O valor é alto? É justo? Depende. Depende daquilo que a empresa irá ofertar aos usuários. Se depender das exigências do edital, o serviço deverá ser caro. Vamos aos fatos:

  • A maior parte dos usuários paga até 6% do salário (trabalhador) ou 50% do valor (estudantes). O valor final, no caso R$ 3,90, não é tudo na discussão.
  • O edital não inclui frota com ar condicionado. Nem mesmo uma porcentagem mínima, para circular em linhas básicas.
  • O edital não inclui a obrigação de veículos com piso baixo, muito melhor para acessibilidade que elevadores, algo que tinha no Consórcio Siga e não na Piracicabana hoje.
  • O edital não diferencia a tarifa paga em dinheiro ou pelo cartão, como em qualquer cidade do mundo. Isto é, não incentiva as pessoas a pagarem antes e usar o cartão.
  • As únicas novidades são WiFi e tomada nos ônibus, algo que deve ter pouco impacto, já que se trata de viagens curtas.

O transporte coletivo blumenauense vem perdendo usuários há mais de 10 anos. E a tendência é continuar perdendo, pois não há incentivo para os moradores passarem a usar o serviço. Com o número de pessoas caindo, a receita da empresa também cai.

R$ 3,90 é caro? Analisando o custo-benefício do serviço, a tendência é que seja. O transporte público não é tratado como prioridade. E a população tem culpa no processo. Por que? Porque ela NÃO SE INTERESSOU por este fundamental serviço público quando era preciso.

A oportunidade surgiu no ano passado, com a queda do Siga. O que a população fez? Ficou reclamando do serviço provisório da Piracicabana enquanto ignorou o edital. A pressão no Executivo que era necessária não aconteceu.

A passagem subiu em pleno serviço de emergência e não houve reclamação. Quando a Piracicabana entrar “em definitivo” provavelmente não haverá reclamações, porque deverão entrar veículos melhores que os atuais. Isto é, os usuários estão acomodados.

Se o transporte coletivo não é prioridade nem para o governo, nem para a população, como esperar que ele tenha qualidade?