27/Fevereiro/2018

Cervejeiros uni-vos

A verdade é que, se isso não ocorrer, em pouco tempo vamos ver boas cervejarias fechando


Jornalista e vencedor do Eisenbahn Mestre Cervejeiro 2017
Foto: Leo Laps

Uma das coisas mais surpreendentes que me aconteceu, desde que comecei a fazer cerveja em casa, foi perceber a disponibilidade com que os outros cervejeiros se dispunham a ajudar os mais novos.

As redes sociais se tornaram uma ferramenta indispensável no aprendizado. A cada dúvida postada, havia sempre uma pessoa disposta a responder, outras iam aparecendo para complementar a informação. Tudo ali, muito simples e de graça.

Essas atitudes me levaram a criar um blog na época, com várias dicas do que vinha aprendendo.

Aquilo pra mim se tornou uma forma de disseminar a cultura cervejeira e de fato, sempre me vi nesse papel, quase como uma missão: ajudar outras pessoas naquilo que eu sabia fazer de melhor.

O mais legal era que eu não estava só, muitos outros cervejeiros, até mesmo os mais reconhecidos, se prestavam a atender quem quer que fosse, tudo sem o intuito de obter lucro, apenas na intenção de ajudar.

Mas é claro, você deve estar aí se perguntando: “Ah tá, o cara quer me fazer acreditar que os cervejeiros são seres dotados da plena bondade e caridade e tudo funciona na mais perfeita ordem?”. Não, não é bem isso.

Assim como em qualquer atividade, a busca pela melhor posição, a forte concorrência e até mesmo o conflito de egos são fatores que criam competição. No meio cervejeiro isso não é diferente.

É certo que o impulso por ajudar é forte entre cervejeiros mas, com o crescimento no número de pessoa buscando fazer cerveja caseira, as atitudes nem sempre são tão amistosas assim.

Até aí tudo bem, são coisas pequenas. Gente que passa desinformação dizendo coisas erradas, ‘haters’ que adoram criticar o que o colega faz independente de ser bom ou não, cervejeiros que aprenderam de um jeito e acham que todos devem fazer daquela forma, sem saber que em cerveja você pode obter o mesmo resultado final de ‘N’ formas, entre outras coisas que, pra mim, tornaram alguns grupos em redes sociais desagradáveis de se seguir. Mas o que me preocupa, na verdade, é quando essa disputa passa do caseiro e começa a ficar mais profissional. Aí a desunião ocasiona perdas para o próprio mercado.

Temos hoje algumas ações bem legais para tentar unir os cervejeiros, como a criação de associações locais, porém, elas ainda têm se mostrado muito tímidas nesse papel e, por vezes, acaba mais segregando do que unindo a categoria, uma vez que reúne uma parte muito pequena de pessoas em relação ao número de cervejeiros em atividade.

Já no campo mais profissional, temos como fato que o mercado cervejeiro está em ascensão. Em 2017 tivemos o incremento de mais de 37% no número cervejarias artesanais no Brasil. Uma quantidade muito expressiva se levarmos em conta o momento de recessão vivido neste ano.

Porém a fatia do bolo não vem aumentando na mesma proporção. O segmento de artesanais abocanha menos de 1% de todo o setor cervejeiro. Aí a briga fica por conta de quem pega o maior pedacinho dessa fatia, quando a opção mais saudável seria a união em busca de aumentar ela para se ter uma divisão de pedaços maiores.

A verdade é que, se isso não ocorrer, em pouco tempo vamos ver boas cervejarias fechando por não conseguir se consolidar no mercado.

Os eventos como festivais e encontros, até são uma opção interessante para trazer mais público e apresentar novas opções de produtos para os consumidores ‘mainstream’.

Porém mesmo esses eventos ainda focam no consumidor de cervejas artesanais costumeiros e não tanto nos novos. O preço alto, o formato do evento, a forma de divulgar e até mesmo a localização, inibem a presença de novos consumidores.

Não há dúvida de que, se queremos que a cultura cervejeira seja realmente disseminada e gere resultados, a união dos cervejeiros deve começar já. E essa força, ao meu ver, deve partir da base.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *