17/Abril/2018

Modelo da Furb entra em debate na Câmara

Vereador questiona capacidade da Universidade honrar o ISSBLU no futuro. Reitor rebate informações apresentadas


redacao@cidadeplural.com.br
Foto: Divulgação/Furb

O modelo administrativo da Universidade Regional de Blumenau (Furb), especialmente do regime previdenciário dos servidores da instituição, foi colocado em debate na última semana na Câmara Municipal. Uma fala do vereador Sylvio Zimmermann (PSDB) abriu o debate e a polêmica em torno da universidade.

Trazendo dados sobre a redução do número de alunos, o parlamentar questionou a capacidade da universidade honrar seus compromissos com a previdência num futuro próximo e pediu o debate sobre o modelo de administração da Furb, chegando a mencionar a palavra privatização.

“A Universidade é uma fundação pública municipal. E o ISSBLU – Instituto de Seguridade dos Servidores do Município de Blumenau é o mesmo dos servidores da Furb. E o que é que vai acontecer? Daqui a pouco ficará insolvente. Como é que se pagará a aposentadoria dos professores municipais e dos professores da Furb? Talvez seja o momento de a sociedade rediscutir o modelo da universidade. Será que é o munícipe blumenauense que terá que arcar mais uma vez com a conta? Ou temos que pensar em outro modelo, em privatizá-la…será que esse é o caminho? Eu não sei..”, declarou o vereador na tribuna.

A fala de Zimmermann repercutiu na Furb. O professor do curso de Arquitetura e Urbanismo Christian Krambeck foi um dos primeiros a criticar a fala do vereador. Para ele, que também é colunista do Cidade Plural, a Furb cumpre uma responsabilidade social com seus projetos de pesquisa e extensão que não pode ser regido pelos interesses do mercado.

Procurado pela reportagem do Cidade Plural, Zimmermann afirmou que a privatização não é a sua proposta para o caso, mas que pretende discutir mais o modelo da universidade. Segundo ele, a maior preocupação é com a questão previdenciária, já que os servidores da Furb também estão ligados ao ISSBLU.

“Estou recebendo muitas informações a respeito desde a fala da tribuna. O assunto precisa ser debatido, é interessante que alguém da universidade venha até a Câmara. O número de alunos caiu muito, precisamos rever a sustentabilidade. Vamos estudar soluções para o caso”, comenta.

Segundo o site Informe Blumenau, o reitor da Furb João Natel já confirmou presença na sessão da Câmara de quinta-feira (19), quando usará a tribuna livre.

João Natel conversou com a editora do Cidade Plural Ana Paula Dahlke sobre o assunto:

Ana Paula Dahlke: Qual a situação financeira da Furb?

João Natel: O que acontece é que estamos há sete anos aqui, administrando os orçamentos da Universidade (o que foi previsto e o que foi realizado). Todos sempre batem. Por exemplo, o de 2017 está com a Controladoria e vai passar essa semana pelo Tribunal de Contas. Oficialmente tivemos no ano passado um superávit de R$ 16 milhões, cerca de 8 ou 9 vinculados a projetos e o restante vinculado ao caixa. Como acontece: fazemos uma previsão de alunos, uma peça orçamentária, entre receitas e despesas, e executa-se isso ao longo do ano. O que aconteceu especificamente este ano é que temos o fenômeno da introdução do 9º ano do ensino básico, refletindo em um ano a mais de espera para ingressar no ensino superior. Então, é como se não tivéssemos o término de terceiros anos. No ano de 2016, 75 mil estudantes se formaram no ensino médio. Em dezembro de 2017 esse número caiu para 30 mil. Essa é uma das razões do não ingresso de alunos na Universidade este ano.

A segunda questão também é o Financiamento Estudantil (Fies). Tínhamos cerca de 500 a 600 novos contratos por semestre. A partir de 2016, esse número caiu para cerca de 30 novos contratos por semestre. O grande problema do ensino superior em instituições que cobram mensalidades, é o preço reter o estudantes.

Outra coisa que foi dita que precisa ser contextualizada é que a estrutura da Furb é uma estrutura para 15 mil estudantes. Sim, seria uma estrutura de 15 mil se funcionasse de manhã, tarde e noite. O que nós temos muito é a do estudante trabalhador. Então a noite não consigo abrir mais cursos porque não tem mais salas à noite. Estão todas lotadas. Esse, infelizmente, é um fenômeno do ensino superior brasileiro.

Ana: Geralmente estudar em um turno que não seja o noturno, é um perfil de aluno e curso específico…

Natel: São no máximo 10 a 12 cursos que possuem o perfil dos turnos matutino e vespertino. Tivemos este ano a redução no número de alunos de graduação. Temos em torno de 8 a 8.300 mil estudantes. Portanto, em cima da peça orçamentária que eu tinha, há menos aula, menos gastos com professores e dessa forma os cortes são feitos. Vamos imaginar que no segundo semestre eu não tenha entrada em um determinado curso, ou seja, não tem aula nesse curso, reduzindo custo.

A fala do vereador Sylvio Zimermann, portanto, não traduz esse aspecto técnico. O que vai acontecer no ano que vem: voltam a se formar mais pessoas no ensino médio. Estamos vivendo 1 ano atípico em âmbito nacional. Não somos só nós.

Para 2019 estimamos que teremos R$ 225 milhões de reais de receita corrente. Temos também Fixação de Despesas, no qual enviamos ao Prefeito, que encaminha à Câmara de Vereadores. Em tese os vereadores aprovaram. Então, me estranha que o vereador não esteja ciente disso.

(Para demonstrar o quadro e situação financeira da Furb, o reitor destaca que qualquer pessoa pode consultar o Portal da Transparência da Universidade. Lá contem o que foi projetado para cada ano, através de conselhos, bem como o que foi executado e para onde foi destinado após o ano acabar, com o aval do Tribunal de Contas)

Ana: Como a reitoria recebe o pronunciamento do vereador Sylvio Zimmerman sobre a privatização da Furb?

Natel: O vereador na minha opinião desconhece como acontece a Universidade, a origem, a quem atende, quais serviços presta… De certa forma, a lógica da Furb na receita, como estávamos discutindo, é uma lógica privada. Temos de 70 a 75% do que entra aqui é através das mensalidades. O que não conseguimos entender na fala do vereador é que privatizar é muitas vezes formar profissionais, descartando a pesquisa, extensão etc… É um risco descaracterizar e perder a condição Universidade. Então, a pergunta que fazemos: por quê privatizar se é um patrimônio público? Vamos vender por quanto? Para quem? O que me chama atenção é que sempre que tem período eleitoral vem essa pergunta. Acho que o vereador precisa viver mais a Universidade, na qual ele se formou, vindo aqui discutir os números e questões. E principalmente, saber o que ele está aprovando na Câmara.

Ana: Há alguma possibilidade de desvincular os servidores da Universidade dos demais servidores na questão previdenciária? 

Natel: Com relação a isso, achei a fala do vereador muito irresponsável. Por exemplo o demonstrativo financeiro de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018 do Instituto de Seguridade Social do Servidor de Blumenau (ISSBLU), revela que o Passivo Financeiro parcelado, há somente o parcelamento feito na gestão do Eduardo, que se estende de 2007 a 2020, com cerca de R$ 30 mil mensais.

E comigo, fiz um parcelamento quando não veio o Fies durante 10 meses. Estamos pagando desde 2015 cerca de R$ 193 mil mensais, que terminam agora em novembro. Isso quer dizer que a Furb vai zerar este ano essa dívida, ficando somente com o débito de R$ 30 mil até 2020. Mas desse déficit, se comparar aos outros passivos que compõe o documento, o maior passivo não é o da Furb. Eu estranhei muito a fala do vereador, porque acabamos de aprovar um parcelamento de 6 meses atrasados da Prefeitura. Se ele tem um zelo enorme pela questão previdenciária, ele está contando a metade de uma história, porque cadê a Prefeitura? A premissa do vereador não é verdadeira. Na imaginação dele a Furb não vai pagar o ISSBLU. A Furb possui uma dívida de R$ 1,3 milhão mais R$ 476 mil, totalizando cerca de R$ 1,8 milhão, num cenário que compõe R$ 56 milhões do ISSBLU. Ou seja, a Furb representa cerca de apenas 3% apenas do déficit.

2 thoughts on “Modelo da Furb entra em debate na Câmara”

  1. O doutor universitário é uma pessoa desinteressada.

    Não possui nenhum interesse particular em fazer pesquisa científica.

    Porque a produção de ciência é uma questão pública.

    Se um doutor em arquitetura escreve um artigo científico sobre alternativas em transporte, ele está colocando a pauta da economia sustentável para a discussão em comunidade.

    Noutras palavras: A universidade, um corpo constituído por teóricos, “molda” a opinião pública e coloca temas para o debate.

    “A fábrica a opinião pública” é um exemplo de texto que mostra a “produção” de assuntos relevantes que merece atenção das pessoas.

    Como, então, uma Universidade, a FURB, uma instituição pública, pode levar essas pautas relevantes para a comunidade através da pesquisa, ensino e extensão de uma maneira sustentável?

    Levar ciência para as pessoas significa mostrar a relevância de debater de certos temas, o que significa que o empresário pode resolver problemas colocados pelos cientistas.

    Se um doutor em arquitetura fala em problemas do trânsito de Blumenau, o debate acaba criando demanda para profissionais da arquitetura, pessoas práticas.

    É a partir da discussão pública que a economia prospera e o empresário pode lucrar.

    É a interação saudável entre público e privado que gera discussões públicas, lucros individuais e socialização de benefícios.

    Pensar numa Universidade promotora do debate público e fomentadora de demandas é pensar em atrair pessoas para os cursos e garantir sustentabilidade econômica., num longo prazo.

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