31/março/2016

Sylvio Zimmemann fala da Fundação Cultural de Blumenau

Presidente da autarquia deixa o cargo nesta sexta-feira (1º) para concorrer nas eleições de outubro. Leia a entrevista.


Jornalista, editor do Cidade Plural

sylvio

Graduado em Administração de Empresas pela Furb, gerente de Estado de Turismo, Cultura e Esporte da Secretaria de Desenvolvimento Regional (SDR), diretor de Desenvolvimento Econômico de Blumenau e desde janeiro de 2013, presidente da Fundação Cultural de Blumenau. Sylvio Zimmermann Neto deixa o cargo da Cultura nesta sexta-feira (1º) para concorrer nas eleições de outubro.

Após três anos e três meses a frente da Fundação Cultural, Zimmermann fala ao Cidade Plural sobre sua passagem no comando das políticas culturais da cidade. O nome do sucessor ainda não foi divulgado pela Prefeitura de Blumenau.

Cidade Plural – Quando o senhor assumiu a Fundação Cultural de Blumenau em janeiro de 2013, as críticas à instituição eram inúmeras, desde artistas até a imprensa, com um editorial do Jornal de Santa Catarina. Qual foi a primeira reação ao chegar na Fundação?

Sylvio Zimmermann – O cenário era ruim, os servidores de cabaça baixa, alguns envergonhados. Logo no começo, tivemos um slogan interno: Fundação convida. O que isso significava? Que a instituição convidada as pessoas para o diálogo, que ela se mostrava viva para a sociedade.

Eu entendi a dicotomia política, administrativa e intelectual que é gerir a Fundação. A administração da casa possui muitos altos e baixos. Quando alguém dá mais atenção a alguns dos pontos, administrativo, intelectual ou político, acaba tendo problemas. A Fundação esteve aberta ao diálogo, quem quiser conversar, nós avançamos. Quem não quis por algum ranço político, ideológico ou qualquer outra razão não quiseram dialogar, obviamente foi mais difícil avançar.

Cidade Plural – Que ações precisaram ser feitas no primeiro ano da gestão?

Zimmermann – Fundamentalmente, no início, nós precisávamos nos comunicar melhor com a sociedade. A sociedade desconhecia o que era feito aqui dentro. Precisamos organizar as informações sobre nossas ações e divulgar mais, através da assessoria de comunicação e com outras ferramentas.

Uma preocupação era com a descentralização das ações. Numa reportagem sobre um encontro de museologia no Rio de Janeiro, um alemão falou que se as pessoas não vão ao museu, o museu deve ir até as pessoas. Dessa ideia surgiu o Parque de Leitura, que teve uma participação efetiva do ex-diretor de Cultura Ricardo Pimenta, que teve um reconhecimento público local, nacional e internacional. Na Conferência Internacional Cidades Sustentáveis, eu fui dos palestrantes para falar sobre o projeto.

Nesses três anos e três meses, nós tivemos agenda na Fundação Cultural de segunda a segunda, incluindo sábados, domingos e feriados. A agenda intensa e descentralizada. Nós contabilizamos mais de 500 eventos a cada ano. Levamos a biblioteca aos condomínios do programa Minha Casa, Minha Vida, reativamos o Centro Cultural da Vila Itoupava.

Vale destacar a reunião da CNIC – Comissão Nacional de Incentivo a Cultura do Ministério da Cultura. As reuniões sempre ocorrem em capitais. Nós trouxemos para Blumenau. Pela primeira vez em 23 anos, o IBGE lançou a coleção Brasil em Números sem ser com um museu de uma capital. Levamos o nosso acervo para o mundo inteiro através dessa coleção do IBGE.

A Fundação Cultural se comunicou com todos os gêneros e todas as manifestações culturais. Num final de semana que teve o lançamento de um CD de ópera, quando ela terminou começou um festival de punk rock. Esse festival antes ocorria a margem da sociedade, agora está aqui. Fizemos a Semana da Consciência Negra na casa da Edith Gaertner também.

Cidade Plural – Como o presidente avalia a relação da Fundação Cultural com os produtores e a classe artística?

Zimmermann – Uma coisa que nos aproximou muito foi o edital de ocupação dos espaços. Nós temos 30 grupos ensaiando aqui dentro, grupos musicais, artistas plásticos.

A gente se comunica muito bem com eles. Quem procurou a Fundação, a gente se aproximou, teve uma reação positiva. Aqueles que já eram refratários por quaisquer questões, esses não.

Cidade Plural – A plataforma Blumenau Mais Cultural foi lançada em agosto do ano passado. Como está a participação nela? Os blumenauenses estão se acostumando com a ferramenta?

Zimmermann – Até esse mês temos 406 eventos cadastrados, 472 agentes, 159 espaços culturais registrados e 89 projetos. Ela ficará cada vez mais forte, é um repositório de informações. Você pode fazer download de tudo. É possível fazer, por exemplo, quais as últimas ações do Museu da Hering, como foram as últimas edições da Feirinha da Servidão.

Estamos negociando com o Instituto Tim, que criou a plataforma do Mais Cultura, para fazermos na cidade, um censo cultural completo da cidade.

Cidade Plural – O Festival Nacional do Teatro Infantil (Fenatib), um dos grandes eventos da cidade feitos pelo poder público, passou por problemas financeiros ano passado e chegou a mudar de local. O evento continua seguro?

Zimmermann – O Brasil vive um momento difícil, não é preciso explicar. O Fenatib é realizado com patrocínios pela Lei Rouanet. Mesmo com a lei de incentivo é difícil, pois há projetos no turismo com mais visibilidade, como a Oktoberfest.

O Teatro Carlos Gomes é um espaço caro para um orçamento limitado como do Fenatib. E como a nossa ideia era descentralizar, usamos o espaço da Fundação Cultural e realizamos parcerias com muitas escolas.

Ano passado nós mudamos a data do Fenatib justamente por questões de recursos. Mas nós avisamos os grupos selecionados da situação e justamente por isso, eles entenderam e reconheceram a nossa transparência. Muitos festivais do Brasil foram cancelados e a nossa comunicação verdadeira deu credibilidade para a Fundação. Fizemos o evento mais no fim do ano e não houve prejuízo com a data nova.

Cidade Plural – A Fundação Cultural não conseguiu recuperar ainda o telhado do prédio e o Fundo Municipal de Apoio a Cultura atrasou em 2014, acumulando em 2015. O que aconteceu?

Zimmermann – Em janeiro de 2013, nós conseguimos aprovar um projeto no Fundo Nacional de Cultura para reforma do teatro. No fim de 2013 nós recebemos o recurso. Fizemos um edital e paralelamente pedimos a aprovação do projeto para a Fundação Catarinense de Cultura, que não aprovou. Tivemos que cancelar o edital.

A Fundação Catarinense de Cultura emitiu um parecer que nós deveríamos primeiro tomar medidas paliativas no telhado, medidas que nós já tomamos há 140 anos. Tivemos que contratar um arquiteto especializado em restauro de telhado. No fim de 2015, recebemos a aprovação do novo projeto pelo Estado. O material foi para a Prefeitura e a licitação deve sair nos próximos dias.

Quanto ao fundo, o atraso foi um pedido feito pela comissão dentro do Conselho Municipal de Política Cultural para pacificar algumas dúvidas junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). Não teve prejuízo de valor.

Cidade Plural – Como o presidente vê o futuro das políticas públicas para a Cultura em Blumenau? O que precisa ser feito para a cultura blumenauense crescer e ser mais valorizada?

Zimmermann – É preciso ser melhor esclarecida, a maioria das pessoas não sabe qual é o papel da da Fundação Cultural na nossa sociedade. Nós temos um trabalho forte de museologia, arquivologia. O Arquivo Histórico José Ferreira da Silva guarda todo os documentos desde o início da colônia no Executivo, Legislativo, Judiciário e de algumas cidades vizinhas que não tem arquivo.

Nós editamos umas das revistas mais antigas do Brasil de circulação ininterrupta, o Blumenau em Cadernos. Temos a responsabilidade das ações culturais, próprias ou com parceiros e o fomento a produção cultural. Esses são os papéis da Fundação.

Mas a nossa fundação não é o único agente para a cultura na cidade. O Turismo possui um papel importante, a Secretaria de Educação e a Fundação Pró-Família também. O que nós temos que avançar é na integração desses setores numa política cultural única. Melhorou, mas pode ir adiante.

Giovanni Ramos
Jornalista, editor do Cidade Plural

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