04/setembro/2018

Presídio Regional de Blumenau: histórias de colegas de cela são tema de livro

Após um ano, Zé me encontra e me entrega um exemplar do “Descuidos e Perdas”


Editora do Cidade Plural/Estudante de Jornalismo na Furb

Um ano após eu ter pisado pela primeira vez no Presídio Regional de Blumenau, localizado no bairro Passo Manso, vem uma boa notícia através do meu Whatsapp. Era seu , 62 anos, ex-empresário na época preso por roubo. Ele era um dos 40 detentos em regime semiaberto que participava de um projeto de ressocialização através da leitura de obras literárias. Me concedeu entrevista numa sala, na qual tinha apenas uma caneta, papel, câmera fotográfica, ele e eu. A matéria fez parte do jornal-laboratório A Parte, do curso de Jornalismo da Furb.

No dia em que eu pisei naquele lugar, não vou negar que o medo tomava conta, até porque eu não estava habituada naquele ambiente, nunca tinha vivido aquilo, visto tal realidade. Quem era eu, estudante do quinto semestre, revistada por um policial, acompanhada por um professor de Direito da universidade e pela responsável pela promoção social e educação da unidade? Além de ter que entrevistar o gerente do presídio e um presidiário?

Pois bem, frente a frente seu , único que aceitou a entrevista, me contou que ali dentro estava escrevendo um livro sobre um pouco da sua história e de seus colegas de cela. No fim da entrevista eu pedi para ele me procurar quando saísse daquele lugar. E um ano depois, foi isso que ele fez.

Nesta terça-feira, dia 4 de setembro, ele me encontra nas dependências da universidade e me entrega o seu livro de cinco contos “Descuidos e Perdas”, que faz parte dos 10 exemplares que ele conseguiu imprimir até agora.

Ele, que prefere não revelar o verdadeiro nome ainda, pois saiu do presídio há pouco tempo, conta que “a publicação resultou do desejo de levar ao leitor, noções de como melhorar sua segurança pessoas e familiar. Nos contos, estão compiladas dezenas de histórias reais narradas pelos próprios autores dos delitos. No final de cada conto, eu faço recomendações e cuidados às pessoas para que não caiam nessas falcatruas”.

Ele está em busca de parcerias para massificar o material, inclusive com prefeituras, para possível distribuição em escolas ou entidades. Interessados podem falar comigo, que eu faço o intermédio da conversa.

No final, deixa uma poesia: Os dois caminhos do crime

Na cadeia tudo é triste,

Não adianta se arrepender,

Para acertar com a justiça,

Primeiro tem que sofrer.

 

Se não quiser ser preso,

Não mexa com nada errado,

Porque se mexer,

Você já estará condenado.

 

A vida no crime,

É uma verdadeira peia,

Só existem dois caminhos:

Cemitério ou cadeia.

 

Os juízes pouco erram,

Isso temos que admitir.

Pra ser preso é muito fácil,

Mas é difícil sair.

 

Advogado faz o pedido e leva o seu dinheiro,

Muitas vezes não vale a pena.

Às vezes o juiz absolve,

Às vezes o promotor lhe condena. 

 

A vida do preso é ruim,

É difícil a liberdade.

A cada dia que passa,

Aumenta mais a saudade. 

 

O homem tem que aprender,

Que não vale a pena o crime.

Por isso tem que passar,

Por um terrível regime. 

 

No tempo de visita,

Espera ansioso esse dia.

Além de ser humilhado,

Humilha também a família.

 

A humilhação é grande,

Para quem nunca fez nada errado.

Mas, para o ver o parente,

Vai mesmo contrariado. 

 

São duas coisas boas na vida,

Que a nós Deus concede:

A saúde e a liberdade

Só se dá valor quando se perde.

 

 

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