Fitub – o festival que queima e transforma

10 de julho de 2017

Diretor, ator e professor de Teatro
Espetáculo Manifesto Prometeu. FOTO: Divulgação

Estamos hoje na metade do 30º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (Fitub). Quatro dias se foram e quatro dias ainda virão. Onze espetáculos já foram apresentados e nove ainda serão.

Nos últimos anos o FITUB vem se conectando, cada vez mais, com a realidade político-social do país e com as experimentações teatrais feitas dentro das universidades e escolas de teatro espalhadas pela América Latina. A nova coordenação do Festival, de Fábio Hostert, já nos mostra a continuação da solidez do Fitub deixado por Pita Belli.

Tanto Pita quanto Fábio deixam claro para o público, a cada edição, que o festival só acontece graças ao esforço de uma equipe enorme. Ela terminava o festival com toda a equipe no palco. Ele começou o Festival com toda a equipe no palco. Do começo ao fim teatro é coletividade, esforço, afetividade, tanto atrás quanto na frente das cortinas.

Vivemos um momento tenso no Brasil, em que as raivas e desentendimentos parecem ser mais importantes que a construção coletiva e os avanços sociais, e o teatro mais uma vez tem o papel de resistência à isso tudo. Os espetáculos do 30º Fitub estão conectados com as lutas da sociedade pelos direitos das mulheres, dos negros, dos LGBTs, dos estudantes, etc. Vimos, nestes quatro primeiros dias, movimentos lindos de resistência.

Em “B I R D”, do Coletivo Errante (UFRJ), acompanhamos a trajetória da adolescente Maria Elisa e o seu processo de compreensão sobre a sua transexualidade. A resistência da mãe ao ouvir Maria Elisa dizer que na verdade é um homem nos escancara a surdez da sociedade brasileira sobre o tema. Negação parece a palavra de ordem quando o assunto são as pessoas trans, isso no país que mais mata a população T no mundo: o Brasil. Porém, B I R D nos traz numa criança a esperança. O único na casa que realmente vê e ouve é o irmão de seis anos, que em uma cena linda sussurra no ouvido de Maria Elisa que fez uma máquina que pode transformá-la em menino. É esta criança que vê de verdade o irmão trans, é esta criança que, com afetividade, se agiganta na defesa deste irmão e que faz com os olhos lacrimejem durante a peça.

“MANIFESTO PROMETEU”, do Grupo Prometeu (Teatro Escola Macunaíma/SP) une de uma maneira bela a tragédia grega de Ésquilo e a Primavera Secundarista de 2016, quando estudantes ocuparam mais de mil escolas em todo o Brasil para denunciar o sucateamento da educação. Duas tragédias unidas em um espetáculo sensível e importantíssimo para o país atual. Prometeu rouba de Zeus o fogo e dá este conhecimento aos seres humanos, por este motivo ele é punido com imenso rigor. Tanto a história de Prometeu quanto a Primavera Secundarista combatem o autoritarismo, na necessidade em ser firme naquilo em que se acredita, no caráter libertador do fogo da educação.

O Coletivo Ocupa Teatro (UFU), que apresentou o espetáculo “BENEDITES”, surgiu a partir de ocupações realizadas na Universidade Federal de Uberlândia (MG) e nos trouxe a oportunidade de ver um espetáculo visceral, corpos nus do começo ao fim, extremamente fortes, resistindo a opressão social diária. Negros, trans, gordos, homo e heterossexuais, moradores de ruas, seres míticos, ocuparam cada espaço do Grande Auditório do Teatro Carlos Gomes. Com músicas de Elza Soares, que deixaram tudo ainda mais forte, a marginalização dos corpos, os julgamentos e opressões estavam despidos, levando a plateia a catarse ao final do espetáculo.

A resistência a esse momento político que vivemos, de tentativa de retirada de direitos, já estava presente no Fitub de 2016, mas voltou com mais força nesta 30º edição do festival. Os estudantes nos mostram que não haverá entrega, e que apesar das pedras que são atacadas, da surdez da sociedade à certos temas, é pelo fogo do conhecimento que resistiremos. Este festival nos reafirma que o palco é um espaço de militância, mas é a sala de aula o verdadeiro lugar da revolução.

“Somos Todos Prometeu. Queimem e Se Transformem”.