14/setembro/2018

Estranhamento

Poesia


Estudante de Ciências Sociais, professor e poeta

Por Jonatan Moretti

Desde que nasci, ou pelo menos
desde que entendi que nasci
eu acho o mundo um lugar estranho.

Ainda pequeno, me faziam acordar cedo
me levavam a um lugar estranho
cheio de pessoas estranhas.

Ali faziam-me escrever, quando eu queria dançar.
Faziam-me sentar, quando eu queria brincar.
Faziam-me falar, quando eu queria pensar.

O tempo foi passando,
e o estranhamento aumentava…

Quando jovem me disseram: Você é pobre e precisa trabalhar!
Mesmo sem entender muito bem o que isso significava
eu fui.

Novamente:
um lugar estranho,
cheio de pessoas estranhas.

Ali um estranho mandou:
conte até dez e aperte o botão vermelho.
Conte até cinco e aperte o botão verde.

Às vezes eu apertava o botão errado,
ou me distraia no meio da contagem.

Sempre que isso acontecia
o estranho aparecia e
furioso ameaçava me demitir.

Eu não sabia muito bem oque isso significava,
mas como todos preferiam o trabalho a isso,
resolvi que seria prudente evitar.

Cresci e percebi que o mundo era um lugar chato
E que o estranho era eu
por achar o mundo um lugar chato.

Todos apertavam seus botões vermelhos e verdes
e escreviam quando queriam dançar
sentavam quando queriam brincar
falavam quando queriam pensar.

Desde que nasci, ou pelo menos
desde que entendi que nasci
eu acho o mundo um lugar estranho.

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