18/julho/2018

Espetáculo do Fitub é cancelado em Gaspar

Versões diferentes reforçam tese de Censura a uma peça sobre transexualidade


Jornalista, editor do Cidade Plural
Foto: Saulo Almeida / Divulgação

Uma parceria entre o Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (Fitub) com o Festinver, festival cultural do município de Gaspar, que já dura duas décadas, foi abalada nesta semana. O cancelamento da peça “Sebastian”, integrante do Fitub que seria apresentada também no Festinver, levantou críticas e acusações de preconceito e transfobia por parte da cidade vizinha. E um conflito de argumentos apresentados pela Prefeitura de Gaspar reforça essa tese.

A peça Sebatian, que tem como tema, a perseguição e o preconceito contra a comunidade LGBTTQI+ foi escolhida pela direção do Fitub para integrar a mostra Palco Sobre Rodas em Gaspar no lugar da peça O Auto da Compadecida, inicialmente escolhida para apresentar na cidade, mas que não foi viável por falta de estrutura física. Sebastian iria ao palco hoje à noite, mas foi cancelada ontem por uma decisão da Prefeitura de Gaspar.

Oficialmente, através de sua assessoria de imprensa, a Prefeitura alega que o motivo foi o fato da peça apresentar NUDEZ com uma classificação indicativa de 14 anos. Segundo a assessoria, a Prefeitura tentou mudar a classificação para 16 anos ou então tirar a nudez da peça. Como não foi possível, preferiu se resguardar e cancelar a apresentação.

A direção do Fitub possui uma versão diferente. Afirma que em nenhum momento se solicitou a mudança da classificação indicativa, que a escolha de 14 anos segue um padrão nacional, pois a peça não possui violência nem sexo.

A assessoria do Fitub informou também que recebeu um ofício da Diretoria de Cultura da Secretaria de Educação de Gaspar informando que a peça não poderia ser apresentada porque a comunidade de Gaspar não estava preparada para lidar com a peça falando de transexualidade e com nudez. O ofício afirmou que:

.. então levamos a sinopse para o Colegiado do Município, e, analisando as cenas chegou-se à conclusão de que o município de Gaspar ainda não está pronto, ou seja, maduro, para receber uma peça de teatro neste contexto…

Questionado sobre o fato do ofício da Diretoria de Cultura apresentar um argumento diferente do exposto pela Prefeitura, a assessoria de imprensa informou que o documento da Cultura não passou pelo gabinete do Prefeito e nem pela Comunicação e que a posição da Prefeitura se limita a questão da classificação etária.

Diretor do espetáculo, Saulo Vinicius da Silva Almeida afirmou ao Cidade Plural que fica revoltado com essa situação, porém não fica surpreso. “É o retrato do Brasil que vivemos hoje. Essa censura revela a sociedade transfóbica que nós vivemos. Esse espetáculo está sendo apresentado desde dezembro do ano passado e não tinha passado por isso”, afirma.


OPINIÃO DO CIDADE PLURAL

O ofício da Diretoria de Cultura confirmado pela Assessoria de Imprensa vai contra a argumentação oficial que o cancelamento deu-se apenas pela questão da classificação etária. Passa a impressão que a classificação é uma mera desculpa para censurar uma peça sobre transexualidade.

Num período obscuro de perseguição às artes em várias partes do Brasil, como a censura na mostra Queer em Porto Alegre, a notícia de um caso parecido no Vale do Itajaí preocupa!

 

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