Conversas Plurais: Bruna Zago e Diego Lottin

4 de dezembro de 2016
Ana Paula Dahlke

 

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Nos moldes do programa Roda Viva (no tempo em que a abertura do programa tocava a música de Chico Buarque), os produtores Bruna Zago e Diego Lottin receberam o Cidade Plural para contar um pouco sobre um ano de Blumenau do casal responsável por diversos eventos culturais na cidade.

Eles são hoje responsáveis pela organização da Feirinha da Servidão Wollstein que acontece no segundo domingo de cada mês, no Centro de Blumenau, entre outros eventos que são patrocinados pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau e já trouxeram o Grito Rock para  cidade.

Paralelo à entrevista para o CP e uma atividade acadêmica, tivemos a presença de alguns alunos de Jornalismo da Furb e do professor Sandro Galarça, que ministra a disciplina de Laboratório de Entrevista.

Ana Paula: O que fez com que vocês saíssem de Rio do Sul para vim a Blumenau? E por que Blumenau?
Diego Lottin: O meu trabalho com produção cultural já vem desde 2006. Começou com uma forma de brincadeira e a partir de 2009 começou a vislumbrar a possibilidade de trabalhar com isso. Então mudamos a narrativa e desenvolvemos muitas atividades voltadas para a música em Rio do Sul. Também focamos no audiovisual porque tínhamos um coletivo que estava integrado a centenas de outros coletivos espalhados pelo Brasil, através do Circuito Fora do Eixo.

Então a partir disso, começamos a nos posicionar bem na região com o Grito Rock, o maior festival integrado do mundo, e produzimos cinco edições lá. Só que chegou um momento que Rio do Sul é uma baita cidade e tem um puta desenvolvimento cultural comparado ao seu tamanho, mas mesmo assim é limitado. O que a gente estava fazendo lá já era o suficiente. O coletivo continua em Rio do Sul e a nossa conexão vem expandindo para Blumenau.

E escolhemos Blumenau porque minha mãe morava aqui, e além disso, a cidade é grande e já conhecíamos vários artistas daqui. Portanto, tínhamos um mercado cultural para explorar em Blumenau.

AP: E você e a Bruna estão juntos nessa produção desde quando?
Bruna Zago: Ano passado. E eu comecei a trabalhar com a produção cultural efetivamente este ano, sendo a minha primeira produção o Grito Rock Blumenau. A gente aproveitou também que no final do ano passado estava aberto o edital do Fundo Municipal de Apoio à Cultura, para já inscrever alguns projetos. Ou seja, o segundo semestre deste ano está sendo voltado para a execução dos que foram aprovados desde então.

AP: E como é a rotina de organização da Feirinha da Servidão Wollstein?
DL: Só para contextualizar, quando chegamos aqui no ano passado em que o edital estava aberto, de 2006 a 2015, todas as nossas ações em Rio do Sul, que foram mais de 200 shows, 5 edições do Grito Rock, 3 semanas do Audiovisual, foram todos eventos financiados pela iniciativa privada, a gente nunca recebeu um real de recurso público. Rio do Sul não tinha lei do Fundo e Blumenau tem de uma maneira bem precária, e olhando o edital daqui, a gente vislumbrou a oportunidade de arrecadar esse recurso para poder pagar também o trabalho das pessoas envolvidas na produção. Então quando chegamos aqui já conhecíamos o jornalista Leo Laps, e ele foi a primeira pessoa que eu procurei. Como ele é um dos idealizadores da Feirinha da Servidão Wollstein, trocamos uma ideia para conseguir viabilizar ela, justamente pela pluralidade que ela é, porque trabalha economia, apresentações culturais etc, mas infelizmente não conseguimos encaixar em nenhum segmento que o edital do Fundo previa. Desde março eu e Bruna entramos na produção e repensamos no primeiro semestre o modelo da feira e tem dado certo. De repente quem olha de fora, não mudou nada a feira, mas na parte da produção ficou muito mais prática e próxima do feirante.

AP A ideia é expandir o espaço da feira com o crescimento do número de feirantes que querem participar?
DL: Na verdade estamos fazendo uma primeira experiência. Mudamos o formato de inscrições e espaços dos feirantes. Antes o feirante escolhia o local da barraquinha e agora é feito um sorteio. Tínhamos 70 feirantes por edição e uma fila de espera com cerca de 100. A gente pensou em como aumentar a feira, talvez subindo a Rua Curt Hering, mas tínhamos dois estacionamentos ociosos, e no último mês em uma reunião com os feirantes, surgiu a ideia de conversar com os donos dos estacionamentos para a ocupação. E é o que vai acontecer na feira de dezembro. Subir a Curt Hering e chegar ao Calçadão da Bruckheimer seria demais, pois temos a questão dos carros nas ruas. E é um processo de conscientização que vamos fazer com os moradores dali, mas vai demorar um pouco ainda.

AP: E vocês percebem que com o novo modelo da feira o público vem crescendo também?
BZ: A gente vê consideravelmente isso, desde o começo do ano até agora. Desde julho com tanto com o Sofá na Rua e também quanto no ato de passear pela feira. O período da manhã também tem ganhado mais força. Estamos trabalhando para conseguir colocar a opção de almoço, mas dai envolve a questão de regularizar junto a órgãos responsáveis pela fiscalização da refeição.

DL: O público vem aumentando cada vez mais devido a Rota de Lazer, que somou muito, e que também precisa ser revista, principalmente na extensão do seu horário. E mais ainda no horário de verão. Mais um ponto que contribuiu para o aumento do público na feira foi o investimento em divulgação na mídia, panfletos, rádio, redes sociais.

AP: O crescimento foi tanto que teve uma edição extra em outubro, não é?
BZ: Sim, este foi um teste porque a lista de espera dos feirantes é enorme, e decidimos contemplar essas pessoas também. Escolhemos outubro pela questão do turismo da Oktoberfest.

AP: E como surgiu O Sofá na Rua?
DL: Surgiu em Pelotas (RS) há uns três anos de um coletivo que fazia parte do Fora do Eixo. E com encontros pela internet e pessoalmente, acabamos conhecendo o projeto deles, de ocupar espaços com musica autoral, e trazemos isso para a feira. E de fato tem um sofá em frente ao músico, com a ideia de ir para a rua e ter um espaço para as pessoas se sentirem em casa.

AP: E quais são os projetos para 2017?
DL: Ainda estamos tentando entender como vai ser o ano que vem. Este ano fomos acumulando bastante trabalho com os projetos aprovados pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura. O que temos definido é a Feirinha da Servidão com várias novidades e reformulação significativa. O Sofá na Rua estamos pensando se vamos manter integrado a feira, até porque não terá mais recurso público para isso, mas iremos buscar da iniciativa privada. Até conversando com o pessoal de Rio do Sul e Pelotas, quem sabe não surge um financiamento coletivo. E o Grito Rock obrigatoriamente está na agenda. A Batalha do Vale estamos trocando uma ideia com o pessoal do rap mesmo, mas o nosso trabalho é mais na produção, é muito mais para eles. O Conexão Blumenau gostaríamos que o Cafundó Bar continuasse com o projeto. Outras coisas vão surgir também na parte de formação cultural, como oficinas, bate-papos e articulação com outros agentes culturais.

AP: E por fim, Bruna, você está produzindo o documentário A Ponte, o que ele vai contar?
BZ: O documentário foi um projeto aprovado no Fundo Municipal, e a ideia foi do Luiz Figueroa de mostrar para Blumenau a Blumenau de verdade, mostrando que não é só turismo, não é só Vila Germânica, não é só a parte bonita da cidade, e sim, que tem muitas pessoas aqui que não tem uma vida com o padrão vendido da cidade. A

Ponte fala exatamente da ponte da República Argentina que tem de um lado o domínio rico que é o City Figueiras e de outro lado a Santa Fé, cheio de casas mal estruturadas. Então você tem nitidamente essa diferença. E ai fecha-se os olhos para esse lado, e inclusive eu era assim quando cheguei em Blumenau. Eu e o Diego moramos perto da Santa Fé e presenciando isso, conversamos com as pessoas de lá e com pessoas que estudam isso como a jornalista Magali Moser e doutoranda Maria Roseli com a parte de serviço social.

Então o documentário A Ponte fala exatamente isso, das diferenças socioeconômicas que são ignoradas pela maioria dos blumenauenses. A previsão para colocar no ar é meados de fevereiro do ano que vem.