Vamos discutir, sim

Talvez possamos passar a discutir um pouco mais seriamente religião, política ou até mesmo futebol



Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.


Arte: Tiburi Mozes Janosi

Crescemos ouvindo que religião, política e futebol não se discutem. Mas, permitam-me discordar e argumentar um pouco diante de tantas controvérsias propagadas pelas redes sociais e que protagonizam cenas lamentáveis de ódio, preconceito, racismo e demais crimes semelhantes que se escondem em um suposto anonimato na internet.

Em primeiro lugar, o resultado de uma aceitação passiva de uma opinião majoritária nunca foi e nunca será um consenso, uma expressão legítima ou democrática de um povo ou de uma sociedade: será uma negação de opiniões contrárias, um massacre ideológico, uma catequização forçada conquistada à luz de um poder dominante.

Especificamente, podemos dizer que o hábito de não discutirmos política resulta em cidadãos menos preparados, menos participantes e mais facilmente manipulados. Os cidadãos dóceis, como sugere Foucault, nada têm a discutir ou nada podem acrescentar em uma discussão sobre política porque foram ensinados a não se meter no que não conhecem e a deixar política para quem é do meio.

Ora, viver é um ato político e abdicar de suas principais discussões é abrir mão de direitos inalienáveis, como educação, saúde, moradia, lazer, cultura.

Também pode-se dizer que ao não discutirmos suficientemente religiões – leia-se crença, fé, algo bastante particular – damos margem para que as ideologias religiosas assumam aspecto perigoso na sociedade. Delegamos aos padres, pastores, líderes religiosos muitas tarefas de cidadania que nos pertencem, muitas funções sociais que não podem ser outorgadas. Quando não debatemos fé, ou as consequências de nossa fé, deixamos que uma suposta fé legitimada pelos meios de comunicação de massa e pelo poder hegemônico se estabeleça como o padrão. Assim, tudo que foge deste padrão não pode ser entendido como legítimo. Esquecemos das particularidades da fé individual e da liberdade de crença e manifestação religiosa, previstas em constituição, para elegermos hábitos aprovados ou reprovados sob a lente de uma fé dominante, que não preserva a multiculturalidade dos povos.

Ao aceitarmos que futebol também não se discute, damos margem para que um pequeno grupo de dirigentes e membros de torcidas organizadas demonstrem o que é, de verdade, ser torcedor, que cara terá o time no campeonato do próximo ano, quem entra em quem não entra nos estádios e quais jogos veremos em horário nobre. Ao consumidor desse entretenimento não é dado o poder de escolha, de decisão. Resta o amor passional, a raiva incontida, as selvagens brigas de torcida.

A quem interessa essa padronização de manifestações culturais e a falta de discussões sobre os assuntos que preenchem a agenda da sociedade? Bom, se pensarmos na maneira como os políticos nos representam e em como vemos nossas demandas atendidas socialmente, talvez possamos passar a discutir um pouco mais seriamente religião, política ou até mesmo futebol.