Sobre a Azul, o Jornalismo e Fernando Arteche

11 de Janeiro de 2018

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.

 

 

 

Tenho alguns livros clássicos não lidos ou lidos pela metade na prateleira. Vez ou outra olho pra eles, tomo-os pela mão, dou uma folheada básica e coloco-os no mesmo lugar.

Outras vezes, o final é diferente: deixo-os sobre a mesa, procuro um marca páginas e recomeço uma história interrompida como se o tempo entre a leitura da última página e a nova investida nunca tivesse passado.

Essa semana, repeti o ritual e recomecei Os Maias, clássico da literatura portuguesa romântica escrito por Eça de Queiroz no final do século XIX.

Enquanto fazia um exame geral de suas condições e procurava algo para usar para marcar suas páginas, encontrei uma passagem aérea Porto Alegre-Navegantes, datada de 29 de maio de 2010.

Lembrei-me de que neste dia, ao fim do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, ocorrido em Novo Hamburgo, voltava para casa na poltrona 26D de um voo da Azul.

 

 

Ao meu lado direito, estava o jornalista Fernando Arteche,

 

 

 

 

que foi colega por quase uma década no curso de jornalismo da Univali.

Arteche, que havia trabalhado na RBSTV (atual NSC) em Blumenau, apresentando o Jornal do Almoço e o RBS Notícias, também fora professor na Unidavi e no Ibes, hoje Sociesc.

Foi a última vez que o vi com vida. Recuperava-se de um câncer e acabara de ser liberado pelo médico de beber uma taça de vinho por dia.

Conversamos sobre a doença, sobre o futuro do jornalismo, sobre as faculdades de comunicação e até sobre a nova fase da aviação brasileira com os novos destinos divulgados pela Azul, já que do outro lado do corredor, quase ao fim da aeronave, estava David Neeleman em pessoa. O próprio diretor-presidente da companhia voava ao nosso lado.

Como dois jornalistas em tempo integral, o interrogamos sobre o mercado da aviação brasileira, sobre economia, globalização, política e até mesmo a comida de avião. Sobre tudo, David Neeleman tinha uma opinião formada e uma contextualização.

Nem nos apresentamos como jornalistas, afinal éramos apenas dois viajantes, há uma semana fora de casa e loucos para aterrissar em segurança. Mesmo assim, a figura do presidente nem de longe nos pareceu alguém com a importância e o poder que detinha à época, esbanjando simplicidade e naturalidade, voando quase na última fileira de um avião comercial.

Ao descer em Navegantes, ainda troquei as últimas palavras com Fernando Arteche, fizemos alguns planos para o futuro, quem sabe sair e tomar uma cerveja, conversar um pouco mais sobre o futuro do jornalismo e sobre como as entrevistas improvisadas com personalidades podem render uma boa crônica desinteressada.

Nos despedimos e seguimos, cada um o seu destino. Foi a última vez que o vi com vida. Arteche faleceu no dia 9 de novembro de 2010, em Blumenau, aos 44 anos.

Não tomamos a cerveja combinada e aquela conversa nunca mais aconteceu. Fernando foi um dos grandes jornalistas com quem trabalhei, um dos professores mais competentes e dedicados que passaram pelos cursos de comunicação de Santa Catarina.

Como jornalista e pesquisador,

contribuiu para um jornalismo mais ético,

responsável e profissional.

Sempre pautou sua conduta na busca pela verdade, no esclarecimento dos fatos, na responsabilidade do jornalista.

Arteche acreditava na importância do jornalismo como transformador da realidade social e como agente de mudanças estruturais necessárias para a humanidade.

Sua ética e seu senso de justiça fazem falta hoje, na imprensa, nos cursos de jornalismo por onde passou e na sociedade blumenauense, onde seu trabalho nunca será esquecido.

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.