A reforma que não pode esperar

8 de novembro de 2017

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.


Neste dia 8 de novembro, a justiça alemã exigiu que o Parlamento nacional reconhecesse legalmente o “terceiro gênero” nos documentos administrativos.

Em Blumenau, o suplente de vereador Lenilso Silva (PT) apresentou, na sua sessão de estreia, oito projetos envolvendo discussões de igualdade de gênero.

Talvez o vereador não tenha tempo de ver tramitar com rapidez suas propostas, uma vez que ficará apenas 30 dias na Câmara.

Não por falta de tempo hábil, mas por falta de vontade política das lideranças conservadoras da casa, que se revelaram fiscais desses assuntos “em nome dos bons costumes” e de uma certa “moral religiosa”.

Esquecem-se as lideranças da cidade que, em 31 de outubro deste ano, completaram-se 500 anos da Reforma Luterana, ou protestante, que deu origem a todas as igrejas evangélicas do ocidente.

Não sabem ou fingem não saber que, quando Martinho Lutero pregou as 95 teses na igreja de Wittenberg, na Alemanha, exigia muito mais do que respeito à bíblia como livro oficial da doutrina cristã: exigia respeito com as pessoas, com sua fé, com sua religiosidade e espiritualidade.

Biógrafos de Lutero concordam que ele foi um homem além do seu tempo. Se vivesse hoje, com certeza ficaria abismado com a barbárie que é interpretar os ensinamentos religiosos a favor de um ponto de vista particular, de uma ideologia que visa apenas a perpetuação do poder pela opressão e pela subjugação de seres humanos.

Se vivo fosse, Lutero bradaria contra as barbaridades de congressistas, vereadores, candidatos e pastores evangélicos. Lutaria por uma sociedade mais plural.

No início do ano, em uma reportagem da BBC, de Londres, a herdeira direta da reforma protestante, a alemã Margot Käufman, afirma a importância de a reforma protestante seguir evoluindo no mundo.

Blumenau, que se orgulha da influência germânica em sua constituição identitária, poderia se espelhar no que acontece na Alemanha e abrir os olhos para as mudanças da sociedade.

Em 2013, as comunidades luteranas alemãs mudaram suas diretrizes e passaram a aceitar o modelo tradicional de família, aceitando também pessoas do mesmo sexo como um casal capaz de criar e educar seus filhos.

Também foi pioneira na própria Alemanha celebrando o sacramento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, antes mesmo de o governo concordar oficialmente.

Outras instituições religiosas filiadas à Fundação Luterana seguiram o mesmo caminho no mundo, como nos Estados Unidos, Suécia e Finlândia.

Parece lógico que tais atitudes não têm ligação direta com este ou aquele livro da bíblia, arma definitiva utilizada por quem defende que o casamento e as demais instituições cristãs sejam preservadas historicamente.

Também nos parece lógico que não só de cristianismo vive o mundo, e que todas as religiões, como as de matrizes africanas, por exemplo, merecem respeito.

Sinceramente, nos parece que tolerância é uma palavra muito amena para o que esses movimentos – MBL, Escola Sem Partido – vêm pregando equivocamente no Brasil e muito fortemente em Blumenau.

Falando-se de Blumenau, de modo mais específico, é preciso mais respeito com a população que não é descendente de alemães.

Negros, pardos, índios e demais misturados, que possuem crenças, hábitos e religiões distintas e igualmente ricas, pensam de forma diferente e precisam ser respeitadas.

A ausência de respeito leva ao estupro e ao feminicídio, à homofobia, ao ódio, à intolerância, a vingança e aos extremismos que todos acompanharam nos episódios envolvendo o advogado e professor da Furb, Marco Antônio André, e na inacreditável moção de repúdio ao evento sobre diversidade na Escola Elza Pacheco.

Desta forma, Blumenau dá provas infelizes de que está há pelo menos 500 anos em assincronia com os movimentos mundiais de vanguarda.

Mais do que uma Alemanha sem passaporte, a cidade perde a oportunidade de vender a imagem de Alemanha sem preconceito.

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.