27/julho/2018

Homens: precisamos falar sobre violência contra as mulheres

OPINIÃO: Quantas vezes esse assunto entra em roda de conversa sobre homens?


Jornalista, editor do Cidade Plural

Mais um crime chocou Blumenau nesta semana. A artista Bianca Mayara Wachholz, de 29 anos, foi assassinada com um tiro na cabeça. O ex-namorado Everton Balbinot de Souza confessou o crime e deve ir nesta sexta-feira (27) para o Presídio Regional. O feminicídio teve origem no término no namoro, não aceito por Souza. Amigas da vítima relatam ainda que ele já havia agredido em outras oportunidades, fato que ocasionou o fim do relacionamento.

Ao que consta, Souza não tinha passagem pela Polícia. O crime foi configurado como feminicídio pois foi um assassinato ocorrido apenas pela condição de mulher dela. Desde 2015, o Código Penal aumenta a pena nos casos de feminicídio.

O autor do crime já está preso e provavelmente será condenado com com uma pena alta. A menos que ele consiga uma liberdade provisória, este caso está praticamente resolvido. Não necessita de investigações, pois o autor é réu confesso. Mas este artigo não é sobre a brutal morte de Bianca e sim sobre agressões às mulheres de uma forma geral. Ou só vamos falar desse assunto novamente no próximo homicídio?

De acordo com uma matéria do portal G1, cerca de 12 mulheres são assassinadas por dia no país, em casos de homicídio doloso, quando há a intenção de matar. Somente me 2017, foram registrados 946 casos de feminicídio no país. Registrados, que fique claro, muitos outros casos podem ter a motivação de gênero, mas acabaram não sendo registrados desta forma. A cada 7,2 segundos, uma mulher sofre agressão física no Brasil. E em 2015, um estupro ocorreu no país a cada 11 minutos.

Quando nos deparamos com esses números, ficamos horrorizados com o nível de violência e machismo da nossa sociedade. Como pode termos tantos agressores por aí, agredindo verbalmente, psicologicamente e fisicamente mulhere todos os dias? Aonde estão esses criminosos que deveriam estar na prisão? Longe da gente? Será?

Voltamos a Blumenau, uma cidade muito segura para os padrões brasileiros, que registra um baixo índice de homicídio de origem de conflitos urbanos (trágico de drogas, assaltos, etc). Muitos dos nossos crimes são passionais, isto é, motivado por paixões, questões pessoais. Em muitos dos casos, o autor jamais tinha praticado um crime antes. São pessoas que até o ato, poderiam ser classificados como cidadãos “de bem”.

O que leva uma pessoa que nunca transgrediu a lei a matar uma pessoa? O que leva um homem a matar a ex-namorada com um tiro na cabeça? Aaah, ele é um louco, um maluco, muitos dirão. Se pensarmos a partir daí, podermos dizer então que a sociedade está cheia de malucos, pois esses casos só aumentam. Podemos concluir, então, que a sociedade está maluca, está doente.

Há dois anos, quando um estupro coletivo de uma adolescente chocou o país, eu fiz uma matéria para o Jornal Metas sobre violência contra a mulher e cultura do estupro. A psicóloga Vanderleia Batista disse a reportagem:

“Essa sociedade legitima a violência de modo implícito, usando a questão de gênero: culturalmente, ao longo da história se deu maior poder ao homem e ele pode usar esse poder para se impor na família, com a mulher, inclusive para usar essa mulher para satisfazer os desejos sexuais dele. Outro problema é a culpabilização da vítima. Quando eu culpo uma vítima, eu tiro a responsabilidade do autor, digo que isso pode acontecer, trato como algo natural, que certas mulheres pudessem viver”.

A sociedade acha normal o homem querer controlar a mulher, ser ciumento, possessivo. Só se choca quando o ciumento possessivo pega uma arma e atira contra a vítima. Antes disso, tudo é considerado normal. Ameças psicológicas, gritarias são reagidas com naturalidade, sempre com a pergunta-reposta pronta: “por que ela não sai desse relacionamento tóxico?”. A vítima desta semana tentou sair…

Na reportagem para o Jornal Metas,a  psicóloga e a assistente social entrevistadas apontaram a discussão sobre gênero nas escolas como uma saída para o problema. Discussão de gênero não é incentivar homossexualismo e transexualidade como alguns pensam. Discussão de gênero é debater o papel de homens e mulheres na sociedade e ensinar as crianças que ambos devem ser tratados com equidade, que não há “coisas de homem e coisas de mulher”, que ninguém é propriedade de ninguém. Isso é discussão de gênero.

De fato, ensinar um menino de 10 anos que começa a gostar de uma garota que, acima de tudo, ele deve respeitá-la e que elas não existem para satisfazer suas necessidades ajuda a projetar uma nova geração, com mais respeito. Mas enquanto isso, o que fazemos com a sociedade atual?

Quantas vezes nós escutamos histórias horrorosas de pessoas próximas sobre violência contra a mulher e não fizemos nada. Não falo apenas de agressão física. Quantas histórias nós conhecemos de relacionamentos tóxicos e nada fizemos “porque ela não pediu ajuda”? Quantos homens nós conhecemos com comportamentos citados e optamos por não interferir no relacionamento dos outros?

Quantas vezes vimos em festas, homens tentando abusar, beijar mulheres à força? Quantas vezes vimos o cidadão conseguir beija-la e escutar pessoas ao lado dizer “Viu? Ela estava querendo, também”? Quantas vezes preferimos o silêncio para não se passar por chatos?

Este artigo é para nós, homens. Olhe ao seu lado, olhe para os contatos nas redes sociais: Quantas pessoas você conhece que agem dessa forma? Agora imagina que eles seriam capazes de fazer se a mulheres/namoradas deles terminassem os relacionamentos. Você já percebeu como aumenta o número de mulheres com medo de entrar em relacionamentos? Por que será?

Crimes como o ocorrido essa semana em Blumenau podem estar mais próximos da gente do que imaginamos. E nós só reagimos depois que eles acontecem…

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