É possível abordar crítica de mídia na escola?

23 de novembro de 2017

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.


 

 

Sempre me perguntei qual a real importância da escola numa sociedade em que os pais têm cada vez menos tempo para o convívio com os filhos. Neste contexto, as novas tecnologias e os brinquedos digitais, tão sedutores aos jovens aprendizes, fazem novo papel da “babá eletrônica”, desempenhado, até cerca dos anos 90, pela televisão.

Os tempos mudaram e a tarefa da escola parece ser, na maioria das vezes, complementar e cristalizar um conhecimento coletivo, construído pelas redes sociais e pelas diversas formas de interação experimentadas pelas crianças cada vez mais cedo.

Essas experiências vão desde o contato sistemático com jogos eletrônicos, videogames, telefone celular e toda sorte de tecnologia disponível para comunicação e entretenimento. E por que não dizer educação e aprendizado?

A escola, essa enquanto instituição carente do olhar público, em todos os níveis, dá respostas de que seu papel nunca foi tão importante e sua eficácia nunca foi tão salutar. Numa cultura em que as tecnologias fazem boa parte das mediações sociais, entender como a comunicação funciona, quais são seus processos por meio da produção, publicação e circulação de conteúdos, ensinar crítica de mídia na escola é ensinar a ler o mundo.

Na escola pública, essas discussões nem sempre ganham a dimensão que a importância do assunto suscita. Quase sempre envolvidos nas suas tarefas cotidianas e em cumprir as horas de um currículo cada vez mais apertado, os professores têm pouco estímulo e preparação técnica para discutir os efeitos da mídia na sociedade e o impacto da mediação da tecnologia na vida dos jovens estudantes.

Mas essa realidade não é a única forma de tratar a educação. Em Blumenau, diversas escolas públicas recebem projetos e programas das mais variadas origens que buscam abrir os olhos para o que acontece no mundo.

A Escola de Educação Básica João Widemann, com seus 117 funcionários e mais de 1700 alunos, é uma mostra de que a educação não precisa se prender aos conhecimentos impressos nos livros didáticos.

Lá, um projeto de extensão da Fundação Universidade Regional de Blumenau (Furb), chamado Edujornalismo para o Letramento Digital, trabalha de forma interdisciplinar diferentes oficinas ligadas ao jornalismo, à produção de informações e à crítica de mídia.

As atividades acontecem desde 2015 e envolvem desde alunos do 4º ano do Ensino Fundamental até o terceirão.

Neste ano, foi implantada, a pedido dos alunos, uma rádio escolar, com o apoio da direção e o suporte técnico dos cursos de Comunicação da Furb. Também foi implantado um aplicativo para celular, que conecta pais, alunos e professores a tudo o que acontece na escola. Mais do que discutir a produção de conteúdos, a escola está provendo novas formas de comunicação digital por meio do uso inteligente da tecnologia.

Por trás de todas essas atividades, está a necessidade de discutirmos política, educação, sociologia, história e tantos temas fundamentais à construção de um aprendizado plural, democrático e participativo. Entender como os meios de comunicação funcionam e como a tecnologia impacta a vida de todos é só o começo de um processo emancipatório que vai resultar em um cidadão consciente e participativo na comunidade em que vive.

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.