E o pacto, governador?

29 de novembro de 2017

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.


Arte: Ana Paula Dahlke

Em 1993, eu era repórter em um pequeno jornal de uma modesta cidade do interior do Rio Grande do Sul, quando fui cobrir uma situação inusitada envolvendo segurança pública.

Bem na praça central da cidade, onde ficavam localizadas as agências do Banco do Brasil e Banrisul, a poucos metros da redação onde eu trabalhava, um assalto mobilizou os curiosos de plantão.

Um carro estacionou na praça e quatro ocupantes desceram. Dois dirigiram-se para uma das agências e outros dois rumaram para a outra, no lado oposto. O roubo durou cinco minutos e os quatro assaltantes fugiram em alta velocidade, sendo perseguidos – de longe – pelo carro da polícia.

No meio da perseguição, uma situação desconfortável e até cômica – se não fosse trágica. O Opala 1980 da corporação precisou parar em um posto de combustível para reabastecer. É claro que os criminosos fugiram sem ser incomodados.

A ocorrência pitoresca, digna de novela das 7, só aconteceu porque, na época, havia racionamento de combustível nas viaturas, que não podiam encher o tanque sem ordens expressas do comando geral, localizado na cidade vizinha.

O fato se justifica em uma cidade do interior, a 60 quilômetros de Porto Alegre, com 8 mil habitantes. Mas é inadmissível em uma gigante como Blumenau, com todos os seus problemas de violência e criminalidade, toda a pujança econômica de uma cidade com 309 mil habitantes.

Pois o racionamento que foi divulgado pela imprensa na terça e acabou rapidamente na quarta-feira desta semana levanta uma série de questionamentos sobre os investimentos divulgados pelo governo do Estado, em 2014, no Pacto por Santa Catarina.

De acordo com o portal do próprio governo, o total investido em quatro anos no estado seria de R$ 154,8 milhões. Neste período, em média, cada um dos 295 municípios catarinenses receberia um investimento de tímidos R$ 131 mil o que, convenhamos, mal dá para trocar a fechadura das delegacias.

Os recursos seriam destinados preferencialmente às grandes cidades e serviriam para renovação da frota operacional, aquisição de equipamento de combate a incêndio e de socorro, compra de equipamentos de proteção coletiva e individual, modernização do sistema de comunicação da Segurança Pública e na criação do Projeto de Videomonitoramento Bem-Te- Vi.

Pelo jeito, neste grande pacto por Santa Catarina não estava previsto abastecer os veículos para policiamento nas grandes cidades, visto que outros municípios fora do Vale do Itajaí já registraram o mesmo racionamento, como algumas cidades da grande Florianópolis, Oeste e Sul de Santa Catarina.

Sobre tudo isso, duas considerações finais precisam ser registradas. A primeira, de que o projeto de governo e sua execução nem sempre falam a mesma língua, visto que na propaganda tudo é perfeito e todos os problemas serão resolvidos.

A segunda, menos óbvia, é que enquanto os investimentos em segurança forem destinados apenas à compra de armas, munições, viaturas, tecnologia e equipamentos, sem se pensar em inteligência e em uma política preventiva e de ressocialização, todos os recursos serão ineficientes.

É preciso humanizar as cidades, distribuir melhor e mais equilibradamente os recursos, reduzir as desigualdades sociais, plantar sementes de civilidade e investir em educação de qualidade.

Do contrário, nenhum pacto será suficiente.

Jornalista e professor da Furb. Escreve nas quartas-feiras.