DO COLETIVO FEMINISTA CASA DA MÃE JOANA, LIDO NA SESSÃO DO DIA 7 DE MARÇO NA CÂMARA MUNICIPAL DE BLUMENAU, LIDO NA TRIBUNA POR MANOELLA BACK, JORNALISTA, COLABORADORA DO CIDADE PLURAL

Caros senhores vereadores,

Serei muito breve e peço atenção.

A primeira coisa que podemos notar é que não estamos representadas nesta mesa. Apesar de sermos mais da metade da população brasileira e das pessoas que votam, não há vereadoras na casa. Este é apenas um reflexo da desigualdade que a maioria ainda insiste em questionar  e que também é uma forma de violência. A consequência disso é que somos pauta aqui apenas no dia 8 de março, mas estamos em 2017 e precisamos ser levadas a sério. Enquanto tivermos pouco espaço para sermos ouvidas, precisaremos gritar.

Por outro lado, existem movimentos trabalhando duro em Blumenau e lutando pelos direitos das mulheres durante o ano inteiro. Praça Lilás, Associação das Domésticas e Diaristas, Coletivo Feminista Casa da Mãe Joana, Coletivo LGBT Liberdade, Coletivo Damas de Paus, Grupo de debate para criação do Conselho de Politicas para Mulheres, Instituto Nísia Floresta, Doulas voluntárias, Movimento Nascer em Casa, Grupo Piracema, Associações de moradores e tantos outros.

O quão perto destes grupos os senhores estão? Com que frequência debatem conosco sobre nossas demandas? Apesar de parecer que a violência contra a mulher não faz parte da nossa realidade, Santa Catarina é o segundo estado com mais tentativas de estupro no país e, aqui, 96% das mulheres assassinadas são vítimas de parceiros ou ex-parceiros. Ou seja, morrem por serem mulheres, por serem consideradas propriedades de alguém. Só nos três primeiros meses do ano passado, quatro mulheres haviam sido mortas em Blumenau.

Podemos mudar a realidade discutindo este assunto nas escolas, por exemplo. Mas esta mesa nos tirou a chance de dialogar quando riscou os debates de gênero do plano municipal de ensino. E isto poderia ter sido diferente se os senhores estivessem dispostos a dialogar com a gente, as mulheres. Política não se faz com achismos, nem com a benção de Deus, não é questão de opinião.

Blumenau é a cidade com mais pessoas morando em favelas no estado, de acordo com a pesquisa de 2010 do IBGE. Elas representam 7% da população. Os senhores conhecem a realidade social das mulheres que moram nestas periferias? Muitas ainda lutam para garantir direitos básicos e fundamentais para SOBREVIVER.

Assim como as travestis do bairro Salto do Norte que sofreram ameaças e ataques violentos por parte de alguns moradores em 2015, e têm expectativa de vida de 33 anos no Brasil. Assim como as mulheres haitianas que tentam recomeçar suas vidas em uma cidade que se orgulha em fazer parte do “Sul é meu país”, assim como as trabalhadoras domésticas que acabaram de ter a profissão reconhecida, e as diaristas que lutam por direitos que temos há mais de 70 anos.

Conhecem a realidade das operárias do nosso pólo têxtil de Blumenau? Quantas delas estão esgotadas com a tripla jornada de trabalho, que é considerada normal em nossa sociedade? Casa, filhos e emprego. Quantas delas estão com L.E.R ou depressão, doenças que atingem muito mais mulheres do que homens?

Conhecem a realidade das mulheres que são atendidas na delegacia precária que temos na cidade? Se olharem de perto poderão ver que estamos muito longe da Alemanha Sem Passaporte, a situação é alarmante. Principalmente porque quem administra o serviço é o governo do estado, e a prefeitura não sente responsabilidade em interferir.

Mas, se quiserem ir a fundo sobre a realidade da mulher em Blumenau, desejo sorte. Porque é muito difícil conseguir estatísticas concretas sobre a situação da mulher em Blumenau, a carência de dados e pesquisas é generalizada, seja na Delegacia, na Secretaria de Saúde, na Assistência Social.

Aliás, a Assistência Social é a única secretaria que possui programas destinados especificamente às mulheres na cidade. A secretaria que menos recebe verbas, que mais tem carência de profissionais qualificadas, que mais lida com as situações de vulnerabilidade e risco. Que tal pensarmos em ações para evitar que elas cheguem a este nível de violência?

Se somos o segundo estado com mais tentativas de estupro no país, como já mencionei no início, que tal pensarmos na violência que a própria administração da cidade perpetua, ao vender a imagem da Oktoberfest com mulheres e dar passagem livre aos turistas que vem pra cá achando que estamos a disposição, cometendo assédios sexuais graves?

Onde está o debate? Onde está a preocupação com a segurança das mulheres que frequentam o evento? Onde estão as campanhas de conscientização? E as estatísticas das mulheres que se sentem hostilizadas na maior festa alemã das Américas?

Nos últimos anos, a única lei aprovada nesta casa que beneficia os direitos específicos das mulheres foi a lei de acesso às doulas nos hospitais durante os trabalhos de parto. Mas o município está muito longe de garantir este atendimento às gestantes que moram aqui. Hoje é preciso pagar particular ou contar com o trabalho valente das doulas voluntárias.

Para finalizar, gostaríamos de ressaltar que 8 de março é uma data histórica de luta para as mulheres. Não é dia de comemoração, não é dia de flores, não é dia de gastar dinheiro e desejar “feliz dia da mulher”. Convidamos toda a população para se juntar à nós amanhã, das 16h às 20h, na escadaria da igreja matriz, para debater e panfletar materiais contra a violência à mulher.

Convocamos os senhores ao debate e à ação.

#ForaTemer