01/junho/2016

A cultura do estupro e a abordagem sobre gênero na escola

A colunista Aline Cruz convoca as mulheres a participar do ato nesta quarta-feira (1º) na Praça Dr Blumenau


redacao@cidadeplural.com.br

Por Aline Cruz

citalinejunho

Na última semana, as redes sociais foram invadidas por um vídeo onde uma adolescente aparece nua, vulnerável, inconsciente após o estupro cometido por mais de trinta homens. Enquanto a mobilização de poucos denunciou um crime, o julgamento, sexismo, machismo, elitismo de muitos relativizou o mesmo, seguindo a dinâmica das violências de gênero que ganham repercussão nacional e nas redes sociais: depois da notícia de uma mulher vitimada, a violência moral continua com a relativização desses crimes, com justificativas para a violência, como o passado da vítima, as circunstâncias, a roupa que estava usando, enfim, procuram motivos para justificar o indefensável.

Impressionante ver os cidadãos de bem da internet julgando a vida de uma adolescente, culpando-a por um estupro coletivo, mas se omitindo, não mostrando o mesmo esforço em reconhecer a culpa de homens que, em sua maioria adultos, abusam de uma jovem inconsciente, expõem o corpo da mesma e, praticamente, confessam o estupro coletivo.

PARTICIPE DO EVENTO NESTA QUARTA (1º)
PRAÇA DR BLUMENAU

Foi chocante ver pais e mães de família, mulheres, homens “de bem” se esforçando para compartilhar notícias sensacionalistas que atacavam a vida de uma adolescente, memes que culpavam o apenas o funk pela cultura do estupro (sendo que este é o povo que vai até o chão com funk na formatura) e, claro, ovacionar personagens conservadores da nossa política que defendem castração química como combate e punição ao estupro (sendo que este mito, contraditoriamente, homenageia torturador de mulheres durante o regime militar).

Me deparo com este confuso cenário da sociedade brasileira e só consigo observar o quanto é urgente combatermos a CULTURA DO ESTUPRO. Mas, afinal, o que é CULTURA DO ESTUPRO, onde ela está presente, como vamos exterminá-la do nosso inconsciente coletivo? A Cultura do Estupro é um conjunto de valores e signos que legitimam e relativizam o estupro, objetificando as mulheres, invertendo valores, culpabilizando mulheres, tentando nos ensinar em vão a não sermos estupradas, ensinando o medo, porém, sem educar homens para não estuprar e respeitar as mulheres.

São máximas no inconsciente coletivo como “o não significa sim”, normalizar o assédio nas ruas, não respeitar o consentimento, sutilmente estimular a falta de consciência para cometer abusos (“opa, formatura de terceirão, as novinhas vão estar louquinhas” ou “festa double drink só pra elas”), a mídia romantizando cenas de abusos e estupros, TUDO ISSO PARA NÓS, HOMENS E MULHERES, NORMALIZARMOS A VIOLÊNCIA SEXUAL! (para entender mais um pouco sobre a CULTURA DO ESTUPRO, tem este post do blog da Geórgia.

Campanha que se espalha pela web. FOTO: Divulgação
Campanha que se espalha pela web. FOTO: Divulgação

Mas como combater esta cultura e evitar o crescente número de abusos e estupros, que deve ser bem maior, pois dentro desta cultura está um sistema onde o estado patriarcal não acolhe e oprime a vítima, intimidando as mulheres, fazendo-as desistir de registrar denúncias. Infelizmente, eu sei que a nossa indignação, que as milhares de mulheres que se mobilizaram, não vão eliminar o machismo e fazer com que os casos de estupro diminuam nos próximos meses, nem vai fazer com que os homens tenham vergonha de compartilhar vídeos íntimos e fotos de mulheres pelos grupos de whats app, nem vai terminar com o assédio nas ruas em que meninas e mulheres estão diariamente sujeitas.

Também não acredito em castração química, o estupro vai além do sexo, é violência, não precisa de libido e pênis para violar outro corpo. Sendo assim, o combate à violência se dá pela educação, o resultado é demorado, porém, é eficaz. Há vinte anos atrás não usávamos cinto de segurança, nem separávamos o lixo. ABORDAR A DIVERSIDADE DE GÊNERO É URGENTE! Ou seja, é preciso discutir gênero na escola sim! A escola deve se comprometer com o combate de estereótipos e não pode marginalizar as diferenças.

Hoje nós vamos para a luta. HOJE, DIA 1º DE JUNHO SERÁ O ATO PELO FIM CULTURA DO ESTUPRO, ORGANIZADO PELO COLETIVO FEMINISTA CASA DA MÃE JOANA. Vamos nos concentrar na Praça Dr. Blumenau, às 18 horas. O Coletivo Feminista Casa da Mãe Joana contextualiza a cultura do estupro com suas pautas mais antigas na cidade de Blumenau: a inclusão do debate de gênero nas escolas e atendimento desqualificado da Delegacia da Mulher, que trata com descaso e descredibiliza as denúncias das vítimas. AMANHÃ, DIA 2 DE JUNHO VAMOS PARA A CÂMARA DOS VEREADORES, lutando pela inclusão da diversidade de gênero na educação.

Importante lembrar que o cenário político atual é de retrocesso, o conservadorismo se personifica na bancada religiosa na Câmara dos Vereadores de Blumenau, que foi responsável pela retirada da educação de gênero do plano municipal de ensino. MULHERES: VAMOS A LUTA, A RUA E A AUDIÊNCIA!

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