Mobilidade urbana e as eleições em Blumenau

11 de outubro de 2016

Arquiteto e urbanista. Professor da Furb

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A Transição é o movimento consciente e motivado de passagem entre a situação actual e o futuro ideal que ambicionamos. Estamos em Transição. (http://transicaoportugal.net/)

Vivemos um momento de transição no mundo, no Brasil e aqui em Blumenau não é diferente. Mas o que significa isso? É uma resposta complexa, depende de cada realidade e pessoa, mas principalmente deve ser um processo contínuo de construção coletiva onde o mais importante não é a resposta, mas formular a pergunta correta. Onde estamos e para onde queremos ir… e porque? O fato é que neste início de século vivemos não apenas uma crise econômica e política, mas também uma crise existencial e filosófica, uma crise de valores.

Neste sentido é fundamental construir o novo, um novo caminho e modelo de cidade, de democracia, de representação política e de planejamento e gestão de cidades. Algo capaz de representar nossas expectativas e necessidades no século XXI, mais focado no futuro, do que no passado, interessado em saber como será a cidade que deixaremos para nossos filhos e como eles viverão nela.

Mas se falamos e pensamos tanto nisso, porque o resultado das eleições em Blumenau é mais do mesmo? É colocar no segundo turno “duas faces da mesma moeda”, candidatos que representam os mesmos interesses e grupos políticos dominantes a tanto tempo por aqui?

Mas o tema não era mobilidade urbana? Então porque falar sobre modelos e futuro? Talvez porque sem mudar o formato, o modelo geral, conseguiremos mudar a realidade, inclusive a mobilidade, problema dramático, apenas no discurso, nos programas eleitorais bem feitos por marqueteiros ou no imaginário da população, que sonha em viver numa cidade integrada, integral, com um sistema coletivo de ônibus confiável, confortável, eficiente, barato e inteligente a garantir de verdade seu direito de ir e vir. Uma cidade com ciclovias seguras e interligadas conectando parques, praças, locais de moradia, trabalho e estudo. Com mais espaço para as pessoas e sistemas coletivos e não motorizados de transporte. Justamente para que quando precisarmos usar o carro, possamos nos deslocar de forma segura e fluida, sem enfrentar engarrafamentos crescentes.

Uma cidade diferente, participativa, em rede, coletiva, democrática… e não como acontece hoje, com um grupo minoritário engravatado e isolado em escritórios decidindo os rumos de nossa cidade sem consultar a população, sem verdadeiros processos participativos, apenas audiências públicas burocráticas e chatas com pouquíssima participação social. Uma cidade onde o prefeito venha dialogar com os coletivos, movimentos e entidades, que crie metodologias efetivas de participação social direta, que vá trabalhar de bicicleta e de ônibus, que empodere e transforme os bairros e comunidades carentes, que pense e queira construir o novo de verdade, uma nova forma de fazer política, de planejamento urbano e gestão pública.

Um grande exemplo de oportunidade perdida é o Edital do Transporte Coletivo, que visa escolher a empresa que operará o sistema durante os próximo 20 anos. Sem previsão de piso rebaixado, espaço e integração com a bicicleta, combustíveis não poluentes e outras soluções do século XXI capazes de garantir o aumento efetivo e permanente do número de usuários, sem o qual o sistema entrará em colapso novamente em menos de 10 anos.
Será utopia ou ingenuidade desejar que algum dia tenhamos uma opção para votar que se aproxime deste perfil, desta forma de pensar…? Uma opção que seja apenas um representante da própria rede de cidade para as pessoas, que seja a comunidade, as pessoas, os coletivos, as minorias, os movimentos sociais, os conselhos… que seja o novo de verdade!

Neste dia poderemos dizer que há esperança de melhorar a mobilidade urbana da cidade a partir de um novo paradigma, de novos princípios e parâmetros. Até lá, desejo boa sorte na escolha entre dois candidatos iguais, que representam o mesmo projeto e forma de ver a cidade…

Aproveito para convidá-los a conhecer a Transition Network (Rede de Transição), que é uma instituição não governamental sem fins lucrativos que tem como missão inspirar, encorajar, conectar, e apoiar as comunidades a fazer a transição para comunidades saudáveis, sustentáveis, resilientes e felizes.